Ao amigo que não me salvou a vida!

Jota,

Há uma semana que a minha vida se resume à contagem de apitos das máquinas que me rodeiam. Há uma semana que esta maldita cama: velha, desengonçada e com tantas ou mais dores nas articulações que eu, é a minha casa. Há uma semana que o meu olhar não passa além dos longínquos vidros da janela. Contam-se as horas, contam-se os dias e não se contam as semanas porque realmente são tão vastas que se torna difícil contá-las, chegamos a um momento e perdemos-lhe a conta.

Há uma semana que não sei o que é sorrir, como sorri naquela noite em que saímos de casa para irmos à discoteca engatar as miúdas e no segundo a seguir acordei aqui, sem perceber porquê, nem aonde estava, nem o que tinha acontecido. A única coisa que me sabiam dizer era que tinha tido um acidente.

Pergunto-me todos os dias o que é feito de ti, por onde andas, o que fazes e porque é que até hoje nunca me visitaste. Nem fizeste uma chamada para saberes de mim. Desde aquela fatídica noite, do acidente, em que me deixaste sozinho dentro do teu carro e desapareceste sem deixar rasto que te perdi, como se perde o rasto a uma estrela cadente.

Não é esse o papel dos grandes amigos, pois não? Crescemos juntos, Jota: das tardes loucas de futebol com amigos, até às saídas na escola e depois na faculdade, nunca me tinhas falhado como me falhaste no momento em que mais precisei de ti. Preferiste abandonar-me à minha sorte do que meter-te em sarilhos, sabias que tinhas bebido de mais, e eu avisei-te muitas vezes que era um erro fazê-lo; mas tu disseste-me que uma saída nocturna sem um pouco de pica, não era uma verdadeira saída nocturna. E bebeste…

E bebemos demais. Para além disso, as sucessivas saídas nocturnas até altas horas da madrugada, fizeram com que em menos de um segundo adormecesses ao volante, mesmo com o rádio do carro quase aos berros, quando dei por isso, já era tarde de mais. O carro perdeu o controlo e só parou numa pequena ribanceira.

Apesar de ambos levarmos o cinto de segurança, imagina a ironia do destino: tu é que ias a conduzir, tu é que tinhas bebido mais do que eu e felizmente não tiveste nada, apenas uns arranhões e uma valente dor de cabeça. Já eu, que ia no lugar do pendura, dei por mim sem conseguir mexer-me, estava completamente paralisado e cheio de dores. Descobri mais tarde, aqui no hospital que tinha as duas pernas partidas e a dor dilacerante que senti naquele momento fez-me perder os sentidos.
E tu o que é que fizeste? Não foste capaz de me ajudar e de pedir auxílio, saíste do carro pelo teu próprio pé e fugiste cobardemente, deixando-me ali até que alguém me encontrasse. Os médicos dizem que estive seis horas ali, na escuridão, sem ajuda de ninguém, sem conseguir mexer-me para poder alcançar uma simples garrafa de água.

Será que para ti só sirvo para companheiro de noitadas?

Esqueceste-te do que fomos e do que somos, do que vivemos e partilhamos juntos, dos grandes amigos que éramos e do verdadeiro significado da amizade. Os amigos ajudam-se, não se abandonam, mas parece que para ti, amizade significa fugir dos problemas e das situações para não teres que as olhar de pé e de frente, para não teres que as encarar.

Estou a sofrer, Jota. A sofrer como nunca terei sofrido na vida. Preciso de ti, do velho e verdadeiro amigo de sempre, preciso que me devolvas a vida que irresponsavelmente me roubaste; mas infelizmente, pelo que sei voltaste a falhar-me. Precisava só e tão só de uma dádiva de sangue tua, um gesto simples e banal como uma troca de olhares entre dois namorados, e ironicamente a vida encarregou-se de te dar essa tarefa a ti, que eras a única pessoa que o podia fazer.

Esperei. Ansiei. Sorri. Tive esperança. E para quê? Na hora da verdade, fugiste cobardemente mais uma vez, tiveste mais uma vez medo de enfrentar a situação; mas principalmente de me enfrentar a mim. De enfrentar os teus erros e as tuas falhas.

Ouvi hoje as mais duras e difíceis palavras, as palavras que nenhum amigo deseja ouvir, as notícias que ninguém quer saber: Não há nada a fazer. Não te pesa na consciência? O teu gesto fez a diferença entre eu viver ou morrer.

E de repente, o meu coração para. Solto a única lágrima que ainda tenho para chorar.

Morri para ti.

PORAna Ribeiro
FONTEEscreViver
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