Anti-Cinderela

Era uma vez uma miúda de nome Cinderela, engraçada, ligeiramente obesa, mas de um coração enorme. Gentileza em pessoa, filantropa e excelente dona de casa, o sonho de qualquer homem.

Aquando os últimos dias de vida da sua mãe, doente terminal com cancro do pulmão com metastização múltipla para os ossos e cérebro, foi mandada chamar ao hospital onde a mesma se encontrava internada sob a responsabilidade da equipa dos cuidados paliativos.

A Cinderela bem que queria prestar os melhores cuidados possíveis à mãe, visto que o pai era um alcoólico, irresponsável e ausente da vida familiar. A sua presença era constante, apenas em casas de alterne quando recebia o rendimento de inserção social ou no tasco onde ainda lhe permitiam fiado.

O internamento impulsivo da mãe naquele hospital privado obrigava então Cinderela a acrescentar ao seu perfeito horário normal como caixa de hipermercado numa grande superfície, a troco do salário mínimo nacional, umas horas extra, como empregada de mesa em banquetes numa quinta da moda lá para o meio da Serra de Sintra.

A chamada que então recebera do hospital fazia prever o pior, sim era mais uma conta para pagar, ou a mãe teria que ser despejada do hospital. Se quiserem ficar no privado têm que pagar.

Cinderela conseguiu aprovação para o micro crédito, daqueles que frequentemente são publicitados tantas vezes quanto o valor da Taxa Anual Efetiva Global que os mesmos propõem. A mensalidade do Hospital estava garantida.

Toda a gente sabe que a Cinderela adorava a mãe, mas tanto trabalho, tanta dor de cabeça, tanta despesa, chegou a ponderar aceder ao último pedido da mãe, Eutanásia.

Como tudo na vida também a mãe da Cinderela teve um fim, com uma paragem cardíaca e sob dependência de morfina.

Após a semana de luto a que teve direito, deduzida nos dias de férias do ano presente, Cinderela regressou à monotonia da caixa de hipermercado, passando produto atrás de produto pelo scanner de código de barras, cadenciado pelo bip irritante.

Entretanto o pai que apesar de omisso quanto às suas responsabilidades, decidiu dar outro rumo à sua vida, foi a uma consulta de especialidade em alcoologia no Júlio de Matos onde lhe recomendaram entrar num grupo de reabilitação de alcoólicos anónimos, local onde viria a conhecer a futura madrasta de Cinderela, uma cinquentona tesuda com um historial em drogas e álcool, historial que deu fruto a duas filhas sem pai mas com uma herança genética avantajada, lábios carnudos e uns glúteos dignos de uma dançarina de twerking.

Cinderela que toda a vida seguiu à risca os ideais católicos de ajuda ao próximo, honrar pai e mãe, permitiu-se assim entrar na sua nova família e conhecer as suas novas irmãs.

Michele e Natacha, rainhas da associação recreativa de Chelas e divas entre as Marchas de Lisboa, por Marvila, rapidamente viram na inocente Cinderela a motorista para as festas na discoteca Mussulo.

Frequentemente as irmãs eram convidadas a criar “guest list” para a discoteca de sons africanos da moda, onde o ambiente quente e sensual fazia parte do estilo mais cobiçado nas escolas de dança da capital, o Kizomba
Cinderela, a caixa de hipermercado sem qualquer atributo físico que sobressaísse, limitava-se a esperar na fila, sendo assediada pelos bêbados que passavam ou que não conseguiam entrar na discoteca.

Já lá dentro Cinderela maravilha-se sempre com a quantidade de corpos insuflados pela ajuda de esteróides anabolizantes e as frequentes manobras de cortejamento, tríceps bem afastados do tórax, e o típico “posso pagar-te um shot?”.

Cinderela nunca teve tal sorte, de ser cortejada, por alguém sóbrio. Munida do seu Nokia 3310 opondo-se com veemência aos novos smartphones, ao ritmo de Nelson Freitas, enviava mensagens escritas, com a mesma destreza de um artista circense a fazer malabarismo. Sendo Ladies Night e mesmo sabendo que tinha que conduzir não deixou de usufruir das suas duas bebidas gratuitas.

Azar ou sorte foi vítima de “Boa noite Cinderela” com GHB na Smirnoff Ice. Como é óbvio, uma relíquia como o Nokia 3310 deu sumiço, devido ao estado de euforia da Cinderela o telemóvel tinha ficado numa mesa qualquer.

O dia seguinte com uma ressaca descomunal, e com um sentimento de nojo pelas poucas lembranças que tinha da noite anterior, talvez pelos 2 minutos de s3xo na casa de banho com um desconhecido e sem qualquer proteção, ou pela despesa no táxi que teve que pagar com sexo oral visto ter perdido a carteira e o telemóvel, levantou-se da cama em direção à sanita onde permaneceu mais 15 minutos a vomitar bílis, visto não ter mais nada no estômago.

No meio de tanto azar um dos frequentadores da discoteca daquela fatídica noite, havia encontrado o telemóvel perdido numa mesa e resolveu guardá-lo. Cheio de perspicácia e muita manha, apercebendo-se que o telemóvel era de uma miúda resolveu dar uma de príncipe encantado e procurar a dona do Nokia 3310.

O então autoproclamado príncipe do Mussulo encontrou no meio da lista de contatos “Mana1 e Mana2”. O dilema era para qual delas ligar, optando pela primeira, apresentou-se e explicou a história. Como seria de esperar a Michele fez questão de se oferecer para ir buscar o telemóvel e consequentemente conhecer o príncipe.

Prevenindo-se utilizou a companhia da irmã Natacha, pôs-se a caminho para o centro comercial Colombo local decidido como mais seguro para o encontro.

Após as primeiras cortesias, Michele nem pensou duas vezes e rapidamente se prontificou a apresentar a verdadeira dona do telemóvel. Decisão prontamente tomada pela desarmonia física do autoproclamado príncipe do Mussulo, que viu o Nokia 3310 como uma espécie de Tinder à moda antiga.

Cinderela quando soube que no final poderia existir um cavalheiro e príncipe encantado e que o encontro se iria proporcionar, rapidamente se pôs em jornada, depilação, sutiã reforçado com aros para lutar contra a lei da gravidade e uma cinta modeladora para a protuberância abdominal.

O tão esperado encontro aconteceu, num dia de chuva, frio e ventoso. O príncipe rapidamente se tornou num Ogre que só emitia grunhidos, e as poucas falas que conseguia articular eram ou sobre os seus feitos heroicos na prensa do ginásio ou pelas conquistas com os alteres, que pelos vistos não surtiram qualquer efeito fisicamente. Mas Cinderela estava disposta a suportar aquela conduta e artificialismo, pois ela tampouco se podia dar ao luxo de ser esdrúxula com o companheiro que escolhia. E servir de motorista parecia o rumo da vida dela caso continuasse solteira.

O namoro ia de vento em poupa, em duas semanas já falavam em casamento e filhos uma casa com a famosa cerca branca e uma maneira de fugir às finanças a trabalhar ao negro no restaurante do tio do autoproclamado príncipe do Mussulo.

Previa-se o verdadeiro, e viveram felizes para sempre.
Bem, mas isto foi escrito pela vida real e não pelos irmãos Grimm, Cinderela sentindo a procrastinação da sua menstruação, fez um teste de gravidez e que para além de positivo, juntou o azar de se abster de sexo com o seu príncipe até ao casamento.

Incrimina-lo pela gravidez era impossível, e o aborto seria a única opção plausível. Aquela não era a época para criar uma criança sendo solteira e com uma crise governativa em desenvolvimento.

E os dois minutos numa casa de banho infestada de urina, copos semi-vazios e papel espalhado pelo chão, para além da gravidez trouxeram HIV e como é óbvio, a fuga do autoproclamado príncipe do Mussulo.

Cinderela abortou, foi despedida por ser portadora de HIV e ainda não se conseguiu livrar da dívida por causa do micro crédito.

As irmãs continuam a ser irmãs, quando precisam de boleia, e a madrasta cinquentona e tesuda já perdeu o “sex appeal”.  Circunstância do casamento com comunhão de bens o pai da Cinderela não se pode divorciar arriscando-se a ficar na miséria, pois teria que dividir mais de metade do que herdou.
Cinderela não viveu feliz para sempre com o príncipe encantado. Cinderela vive em Lisboa num bairro social, desprezada pela sociedade e depressiva.
Cinderela suicidou-se.

PORRafael Barata
Partilhar é cuidar!

PELA WEB

Loading...