Amo-te mais tarde…

Olhou-se ao espelho, depois do banho tomado. Notou que o vidro estava embaciado.

Deixou-lhe uma mensagem, como sempre faz. Pensou dar-lhe as palavras que ele lhe traz ao peito.

Olhou-se outra vez ao espelho.

Lembrou-se que nunca tinham tomado banho juntos.

Riram. Choraram. Entrelaçaram-se. Enlaçaram-se.

Mas o banho, era tomado na solidão de cada um.

Recordou a quantidade de sorrisos rasgados que ele lhe arrancara.

A forma desenfreada como faziam amor.

Sorriu, como se ele ali estivesse. Pensou nele larga e longamente.

Queria escrever no espelho, nas paredes, no chão… Com a ponta do dedo, juntar as letras e contar-lhe coisas que ainda não lhe disse.

Ela sabe cada poro de ser que ele tem. Sonha-lo repetidamente. Adivinha-lo, mesmo quando teima em andar escondido.

Calcou o chão, de mão aberta, tentando sentir-lhe o calor do abraço dos dedos dele nos seus.

Vestiu aquela roupa interior que ele adora. Preta. Como ele gosta de roupa interior preta…

Ligou a música, dançou e cantou. Soltou o cabelo e permitiu que este se agitasse ao som da melodia que escutava.

Lembrou-se que não têm uma música. Aquela música; eles não têm. Nunca tiveram.

Vestiu as calças, uma camisa… Foi buscar as botas de salto alto. Aquelas que ele gosta.

Mudou a música. Sentiu que precisava de calma. Deitou-se no chão.

Fechou os olhos e permitiu que ele lhe invadisse o peito, em jeito de rasgo.

Sente-lo como se se pertencessem intrinsecamente. De forma que só eles conhecem e que ele teima em não entender.

O cabelo tinha acabado de secar. Parou a música e começou a cantar; voltou a dançar, calçada com as botas de que ele gosta.

Olhou-se ao espelho para arranjar os caracóis que tem no cabelo.

Pensou, mais uma vez, que nunca tomaram banho juntos. Enumerou, uma a uma, em cada pedaço de tempo que tinha nas paredes e no chão, as imensas coisas que nunca fizeram juntos.

Quis deixar-lhe uma mensagem antes de sair para ir embora. Quis antes de tudo, saborear cada momento que teve com ele.

Enquanto escolhia as melhores palavras para lhe dar, aquelas que nunca lhe tinha dado, pensou no quão fugaz é o que os une.

Quis ocupar o espaço com palavras sem fim.

Pôs perfume. Aquele que ela gosta. Agarrou no alfinete com a flor e pô-lo no peito. Aquele que ela adora.

Escreveu-lhe a mensagem.

Vestiu o casaco, para se proteger do frio que se sente.

Agarrou na mala, pôs os pensamentos, a música, a dança e o canto lá dentro.

Saiu. Bateu a porta.

Desceu as escadas com as mãos trémulas, a voz rasgada e a certeza de que ele não lhe vale.

Imaginou qual a reacção que ele teria ao ler a mensagem com as letras que juntou.

Chegada à rua, deixou que a chuva a regasse e o frio a embalasse.

“Amo-te mais tarde”. Despediu-se dele. Do outro. Do menino das borboletas.

(in livro Murmúrio Infinito)


RELACIONADOS




PELA WEB

Loading...