Amanhã serei como tu, Avó!

Querida avó,

Ontem à noite sonhei contigo. Não tenho palavras para te explicar os motivos de continuares eternamente na minha memória. Não tenho palavras para te explicar a felicidade que trouxeste ao meu sono quando percebi que avivavas as minhas memórias, as nossas memórias, o que de melhor havia em ti, o que de melhor trouxeste à minha existência.

Todos os dias procuro na minha vida, uma forma de conseguir ser tão guerreira, sábia e inspiradora como tu sempre foste, procuro encontrar na minha vida cada pedaço teu, cada lugar teu, cada ruga tua, cada abraço e cada aperto de mão.

Procuro insistentemente alguém que consiga ter tanta bondade no coração e tanto amor na pele como tu tinhas. Procuro um sorriso que seja idêntico ao teu, que toque tanta gente com um simples olhar, que ofereça tanta paz e tanta sensibilidade como só tu fazias.

Durante aquele doce sonho, avó, vi-me a recuar no tempo. Não era a jovem mulher que sou hoje, era a menina-criança que tu criaste. Corria alegremente atrás de ti, no cerne das tuas rotinas, da tua inseparável velhice, de mãos dadas com cada ruga tua. Falávamos da vida, apesar de eu saber muito menos sobre ela que tu. Falávamos do Sol, da chuva, das árvores e da terra, de cheiros incontornáveis e de sabores lusitanos.

Contavas-me de alegria na voz como era o prazer de ver nascer a flor mais bela do teu jardim, o gosto pelo sabor requintado na uva mais madura que tinhas cultivado com o avô. E riamos juntos, riamos de peripécias, de histórias e de memórias. Ríamos das travessuras dos mais inóspitos insectos, dos mais rebeldes animais, das correrias que eu dava atrás do gato da vizinha. Ríamos porque rir faz bem à vida e ao coração e dá energia inesgotável. Tu eras uma fonte de energia inesgotável.

Sei que me ri durante o sonho, mesmo a dormir, sem me aperceber de nada. Ri-me ao recordar as tuas histórias, e as muitas histórias que me contavas quando me embalavas. Histórias que me faziam sorrir por ter uma avó tão recheada de imaginação e aventuras antigas, queria ser rebelde e aventureira como tu.

Depois de tantas correrias, sentamos-nos à mesa: duas canecas de café com leite e a bela da tosta mista acabadinha de fazer, crocante e estaladiça. O aroma que enchia a cozinha todas as tardes e todas as manhãs. Deliciei-me no meu estado adormecido.

Lembras-te do crochet? Das tardes em que me fazias vestidos paras bonecas, em que me ensinavas a tricotar com aquelas agulhas gigantes, tão grandes como os remos dos barcos que havia no rio. E o novelo de lá? Entre os meus pulsos com todo o cuidado e rigor.

Foram tardes e tardes assim, por entre aquilo que mais dizia de ti, da tua idade e da tua geração.

Lembro-me. Sorrio e quem me dera voltar atrás.

E de repente, as recordações desvanecem-se e acordo, percebendo que já não estás aqui, és memória. És um fragmento puro de saudade intensa.

Tento manter-te viva na minha vida, através daquilo que melhor te caracterizava. Mas nada se compara a ter-te aqui.

Apesar do vazio que deixaste, da ausência que se sente todos os dias, sei que logo à noite vou voltar a sonhar contigo e vou voltar a sorrir como sorria quando estavas aqui.

No dia seguinte vou acordar e vou perceber que um dia irei ser como tu!

PORAna Ribeiro
FONTEEscreViver
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