Almas despidas…

Série de Textos: Ligações Mentais – Cap. 2

Era mais um dia normal na minha anormal vida. Um trabalho normal com clientes pouco normais. Há lojas e lojas, aquela era a loja dos srs fulanos de tal. Eu sabia muito bem quem eles eram e as quantias que gastavam numa peça apenas, bastava para pagar o meu tão pouco avultado salário. Não eram as dondocas das esposas que me chateavam, nem os doutores empinados que achavam que vestir bem era comprar o mais caro e não faziam a menor ideia do que é moda. Não.

O que realmente me chateava eram aqueles divorciados que achavam que dinheiro era tudo e tudo que estava na loja estava a venda. Eram os filhinhos de papa que se achavam a ultima bolacha do pacote, e os casados, mal casados como mentalmente eu lhes chamava. As propostas indecentes foram várias. E depois vinham aquelas típicas queixas ao patrão que a actual funcionária era pouco atenciosa.

Claro que sou pouco atenciosa aliás sempre que digo que não eu passo a pouco atenciosa pois eu não estou a venda. Naquela manhã repetiu-se a missa. Eu já não sabia quanto mais tempo ia durar naquele emprego. ” sicrano esteve comigo e queixou se que você foi muito pouco educada quando ele a convidou para almoçar” ” pela milésima vez eu não fui pouco educada. Eu sou sempre educada simplesmente não vou almoçar nem lanchar nem jantar nem tomar café com nenhum cliente.” Está a ser irracional dizia o meu patrão com toda a sua pose,os meus clientes estão habituados a que possam livremente convidar quem cá estiver para lanchar. Calei me uma vez mais. Se falasse ia dizer-lhe tudo a que os seus estúpidos e frívolos clientes estavam mal habituados e acabaria certamente na rua.

Sempre me foi fácil ler as pessoas a distância. E raramente falho.
Fiquei perdida no meio das roupas desdobradas com os meus desdobrados pensamentos. Por fim havia ordem na loja, circulei para ter a certeza que tudo estava imaculadamente organizado nos seus devidos lugares.

Foi então que o vi chegar. Tirei lhe a pinta a primeira, rodeou os vidros da montra e eu despi lhe a alma. Alto, moreno, olhos castanhos claros cabelo escuro lábios carnudos, rosto que mais parecia desenhado, corpo escultural, sim sem dúvida podia ser modelo de boxers da calvin klein. Cheio de pose. Orgulhoso, egocêntrico, possessivo, tem a mania até aos ossos, prepotente, sim sem dúvida prepotentíssimo e apostava o meu pescoço como ele tinha os dois p’s, petulante.

Estava ali, despido, o menino mimado tinha sempre o que queria não conhecia no seu dicionário ainda, o significado da palavra não. Vingativo, um pouco, o orgulho dele não lhe permitia admitir estar errado nem levar desaforos para casa. Fiz lhe o diagnóstico mais detalhado que alguma vez fiz na minha vida a alguém, com apenas um olhar.
Não errei nem por um milímetro e ainda hoje, anos volvidos não sei como fui capaz de escrutinar a alma daquela forma, por muito bem que leia as pessoas fui capaz de despir a alma daquele desconhecido com tanta precisão sem sequer ele abrir a boca.

Olhou me fundo nos olhos como se ele fosse o leão que acabava de avistar a próxima presa. Esperava que eu reagisse me encolhesse, envergonhasse, ficasse nervosa, sorrisse como muitas, trocasse olhares atrevidos como tantas outras perante um espécime masculino daqueles, porque apesar de tudo eu tenho de admitir que onde ele passar certamente muita mulher pára a olhar, sim admito, ele é bonito que dói.

Rondou-me pela segunda vez numa atitude mais lenta e cautelosa visto não ter causado qualquer impacto na minha pessoa, coisa a qual certamente não estava habituado. Mantive me impávida e serena, usei todo gelo que trazia ao peito para o fazer mas isso ele nunca saberá, foi então que a curiosidade o moveu. Tornei me o seu desafio pessoal, soube o no momento que o vi avançar para a porta de entrada.

E nesse momento o meu inferno pessoal estava a começar e eu mal sabia que este desconhecido me ia atormentar anos a fio, abanando o meu mundo e eu o dele sempre que a vida assim o desejasse. Para mal dos nossos pecados a ironia dos nossos caminhos ia fazer nos cruzar uma dezena de vezes ainda que nenhum dos dois o desejasse, e até hoje não sabemos, ou pelo menos eu não sei o porque desta ironia que me consome.

Sei que também o consome. Desligar o interruptor que se ligou entre nos seria a solução perfeita, se pelo menos soubesse onde se desliga.


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