Alguma vez sentiste na pele o monstro que é a depressão?

Alguma vez te sentiste curvado, a tentar levantar-te mas com um peso enorme nas costas? Como uma enorme sombra com figura humana enorme a empurrar-te, a esbofetear-te, a calcar-te para ficares em baixo, para não te levantares.

Alguma vez te sentiste cheio de força para te levantar e enfrentar o que aí vem até chegar ao exato momento em que te levantas e, se foi a vontade e a força apenas com o ato de te levantares?

Alguma vez ouviste aquela tua voz interior dizer-te que não podes, não consegues fazer, ser, viver? E tu até realmente queres fazer, ser, viver.

Alguma vez te sentiste armadilhado, como um animal selvagem, preso pela artimanha do caçador, que te impede de continuar, que te impede de tentar, que aos poucos te vai deixando sem sorrisos, sem alegria, sem vivência. Que te vai deixando sem ti.

Alguma vez te sentiste necessitado de tanta coisa e de tão pouco ao mesmo tempo? Alguma?

Alguma vez te sentiste deprimido, depressivo, sem reações ou ações.

Alguma vez te apercebeste que apenas sobrevivias em vez de viver? Eu já…

Numa questão de momentos, que realmente levaram o seu tempo (dias, semanas, meses), o mundo desabou sobre ti. As luzes, os sons, tudo incomoda. Sensação de afogamento, é parecido. Sem vontade e força para respirar, sem querer ouvir ninguém, pois, por mais que te falem, tu queres é falar. Não sabes é como. Tu queres dizer, gritar, às vezes simplesmente estar mas, parece que para isso nunca ninguém está disposto. Parece que para esse efeito é impossível encontrar alguém ou algo que te faça sentir melhor. A culpa é tua porque não falas, porque não explicas mas, tu não consegues fazê-lo, tu não consegues falar. Não de repente, não sem primeiro pensar, não sem primeiro esperar dias, semanas para isso! E queres! Tu realmente queres sair da situação, tu queres que te permitas a dar a ti próprio e aos outros uma chance de te ajudar! Apenas não consegues.

Já senti isto tudo e muito mais. Apagaram-se memórias de muito e já me lembrei de coisas que adoraria que tivessem sido apagadas da memória. Nem por um momento foi fácil. Nem nos dias bons. Perdes o teu propósito. Nada te faz sentido e a rotina que tens, bem, tu completas a mesma porque estás em piloto automático. Deixas de encontrar significado nas coisas que mais gostavas de fazer. Deixas de querer comer, deixas de querer ouvir música, deixas-te desvanecer como nevoeiro num dia de primavera, denso mas, que desaparece lentamente. A tua mente torna-se o teu pior inimigo e tu nem tens desejos de morrer mas, às vezes, só a desejas apagar. Desligar as vozes, desligar os sons que te reprimem, que te impedem de viver. Queres ter alguém por perto e não queres ter ninguém. No fundo, és capaz de querer ter sempre alguém perto, porém, só em presença por vezes.

Levantas-te da cama, tomas banho, pequeno almoço num dia bom, vais para a escola, as aulas passam, horas passam, estudas, voltas a casa, comes para evitar algo pior e vais para a cama. A noite será longa, novamente. Não sabes o que fazer, o que ver. Os comediantes de sempre hoje não têm piada nenhuma, como não tiveram ontem, nem terão amanhã. Os snacks que adoravas comer perderam sabor e o teu chá preferido, foi substituído por água, sabe ao mesmo. Queres tudo e não queres nada. Tinhas tudo e sentes-te sem nada. Ouvias tudo e hoje é só vácuo. Foste tudo e hoje só és uma sombra.

Quando reparas que precisas de ajuda, se não for tarde de mais, procuras o convencional, o que a sociedade diz que se deve fazer. Para mim, foi o oposto. Aquilo que não fazia, que nem gostava muito de fazer. Não duvido por um segundo que seja que, com outros, possa isso resultar. No entanto, sempre fui orgulhoso em ser diferente. Em ter pontuação diferente e errada, em pensar diferente, em combater a depressão por qual passei sem saber como. Sou legítimo, não sei como mesmo! Sei que o que fiz, outrora, não me agradava. Talvez mais uma coisa que tenha sido recalcada.

Uma coisa é certa: fiz isso sozinho! Não me orgulho muito disto. Provavelmente teria sido mais fácil falar, explicar e abrir o jogo. Mas não, não conseguia. Eu que por norma sou alguém que não partilha muito, naquele estado emocional, muito menos. Faltava alguém que aparecesse sem querer resolver as coisas sozinho e dissesse apenas que estaria ali para tudo. Para falar ou apenas para estar calado. Para estar perto ou no outro canto da divisão. Que trouxesse pipocas mas não te obrigasse a comer. Que fosse buscar o teu sabor de chá preferido, lhe juntasse água quente e deixasse isso perto de ti, ainda que sabendo que a nada te saberia, na esperança que o sabor te voltasse. Alguém que estivesse e que não tivesse partido. Que te escrevesse num papel, sabendo que não queres ouvir nada, que gostava que soubesses que estaria ali assim que estivesses preparado para voltar a enfrentar o mundo.

Fui sozinho e levantei-me sozinho. Arrastei-me sozinho. Limpei-me sozinho. Olhei para cima para a sombra da figura humana que me cobria, estendi-lhe o dedo do meio e sorri. De lágrima no olho afastei-me, a meu jeito estalei os dedos, coloquei as mãos nos bolsos e voltei à minha estação de comboios, subi e segui viagem, olhando a minha própria paisagem.

Alguma vez sentiste que te deves agarrar a ti mais do que tudo? Que acreditar, sobretudo em ti, te levará ao teu merecido lugar? Eu já! Só tenho pena de ter passado por tanto para perceber isso. Hoje escrevo sobre algo super contido na esperança que chegue e toque nos pensamentos de alguém e que por um só momento, possa ajudar. Faz de ti melhor para à tua volta tudo ser melhor.

Alguma vez te sentiste feliz depois de escrever? Eu sinto.

PORRui Vieira
Partilhar é cuidar!