Algo inacabado…

Já consigo avistar a areia da praia, finalmente cheguei ao local que agora apelido de lar. É onde se encontra a memória dele.

Tiro as meias e coloco-as dentro das sapatilhas, pego nas mesmas e sinto que os meus pés se enterram na areia. A vida deveria ser como colocar os pés na areia, simples e agradável.

Paro de caminhar apenas quando sinto a água enregelar-me os dedos e sento-me, sento-me sentindo o mar bater contra o meu peito como se de uma rocha se tratasse.

A praia estava deserta, quem se aventuraria em pleno Inverno? O ambiente estava propício a aguaceiros, o céu coberto de nuvens cinzentas ameaçava-me com o seu choro. Inutilmente, pois aquela era a minha casa, era o local que me permitia estar perto dele. Eu só queria estar perto dele!

─ Cá me encontro meu amor. Aqui estou, esperando que irrompas do mar, corras para mim e me envolvas nos teus braços. Quero sentir um beijo com sabor a mar, desejo o teu murmúrio quente no ouvido e aquelas mordidinhas no lóbulo da minha orelha. A minha vida tem sido um misto de amargura e deceção. Choro deceção e sangro desespero.

Relembro os nossos passeios pelas ruas frias de dezembro, sentávamo-nos no hard rock café e ficávamos a contemplar os flocos de neve que caíam em cascata. Lembraste da caminhada nesta mesma praia? Foi aqui que disse que te amava pela primeira vez, sempre fui tão precipitada. Como pudeste abandonar-me? Não consigo manter esta farsa por muito mais tempo… Amo-te mas sei que não estás vivo, sei que apenas alimento a minha esperança dizendo a todos que voltarás quando o vento me sussurra que estou a lutar por uma causa perdida.

Oh meu amor! Como posso prosseguir sem ti? ─ Junto os joelhos ao peito e encosto os lábios aos mesmos, sinto de imediato o sabor a sal que se entranhou na minha pele ─ Amo-te meu. Amo-te…

As lágrimas confundem-se com as gotas de água que o mar espirra e sinto que o meu corpo não me obedece, estou completamente paralisada. Já não sinto que a água esteja fria… É como se já fizesse parte de mim, metade do meu corpo está coberto por ela e acho que faço parte daquele local, sou um rochedo como todos os outros, não passo de um rochedo no meio de tantos outros nesta praia que é a vida.

Ouço uma voz ao longe, depois deixo novamente de ouvir e apenas miro o mar…

Sinto uns braços experientes abraçarem-me, aquele perfume…

─ Os teus lábios, a tua pele… Estás roxa. Que pensas que estás a fazer?

Depois destas palavras tudo ficou negro.

PORSofia Sousa
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