Agridoce.

Ter-te e não te ter é sinónimo de olhar para ti e vir-me o medo de que dum segundo para o outro mudes aquilo que sentes por mim. Sei que não escolhemos de quem gostamos e como gostamos e sei que é mais um daqueles medos que não são racionais, como tantos outros. Mas o que seria de mim se fosse tão racional? Se o que eu sinto fosse tão racional?

Ninguém fez de nós as pessoas certas, nem tão pouco as pessoas certas um para o outro. Ambos sabemos melhor que ninguém que somos errados. Sempre fomos. Errados e do avesso. E ainda ao contrário. Como a mistura do doce e do salgado. Algo a que muitos chamam de agridoce.

Nem agridoce, nem doce, nem salgado.

Um nada exclusivamente perfeito e único. E podíamos os dois num dia qualquer querer atingir um só pólo. Querer o doce do açúcar ou o salgado do sal todos para nós, numa medida só e duma maneira acertada. Como numa receita de cozinha. Mas ao contrário do que muita gente diz, o amor não vive de receitas. Eu não escrevi a receita de como me apaixonar por ti, nem tu deste as dicas para tal. Contudo vivo com isso. Porque tenho que. E mesmo que não tenha, eu assim me deixo ficar. E é este deixar-me ficar que me assusta. E se tu não te quiseres ficar? Se num dia qualquer acordes com menos vontade de mim? Se me olhes e me aches a mulher mais feia ou nem vontade tenhas de me olhar de todo. Se não tiveres vontade de te voltar a deitar comigo. Não me assusta que não me dês o boa noite, que não tranques a porta ou que deixes o tampo da sanita para cima. Assusta-me que mudes os teus vícios e manias para que eu deixe de te ver. Para que eu deixe de te conseguir decifrar. De que me serve não conhecer os teus vícios se conheces os meus.

De que me serve ser a mulher por quem os teus olhos não olham mais, se é o oposto disso que quero ser para sempre? Dá-me apenas o único para sempre possível que é o teu. Sem extras e sem favores. Dá-me a tua melhor colecção de instantes e deixa-me reinventá-la. Como quem reinventa um novo parágrafo ou um barco. E desengane-se quem acha que reinventar um parágrafo é fácil. Cada palavra e cada vírgula estão colocadas num local estrategicamente perfeito.

Então dá-me. Enrola num papel de embrulho ou num saco de plástico e dá-me. Como quem dá o mais simples pedaço de papel, estimado como se fosse um pedaço de pergaminho. Eu cuido, amo e aplico. E quando vieres fica. Fica como quem quer, como quem ama. Fica como tens ficado. Amando ou não. Querendo ou não. Mas fica. Porque querendo ou não, vamos amando.


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