Afinal a vida também falha… E falhou-me!!!

A vida falhou-me. Quando eu mais precisava dela, falhou-me de todas as formas e maneiras: sem alma, sem respeito, sem atitude, com preconceito e com frieza. Falhou-me na infância, logo – no preciso e exacto momento – em que eu estava a começar a crescer, de uma forma inocente, simples e descomplexa. Falhou-me na família, cresci sem amor, sem carinho, sem aconchego, sem um abraço sincero e sentido e sem um beijo de amor. Nasci sem ser desejado e sem ser amado, sem ter um pai, sem ter uma mãe, sem ter alguém a quem chamar de avô ou avó.

Falhou-me no lar que nunca tive, cresci sem saber o real sentido de ter uma casa para viver, um tecto aonde dormir. Habituei-me a viver naquilo que desde sempre ouvi chamar de instituição. Ali a atenção era de todos e não apenas minha, ali o amor era dado ou oferecido sempre na mesma medida e com a mesma intensidade, a tristeza e a solidão eram partilhadas e a dor sempre foi algo difícil de esconder.
Ali nunca tinha brinquedos só meus, porque os brinquedos eram sempre de todos, ali comíamos todos à mesma mesa e eu não tinha quem me desse de comer ou me partisse a carne ou o peixe em pedaços mais pequenos porque havia sempre muitas crianças para atender. Desde pequeno que fui aprendendo a desenrascar-me sozinho. Desde pequeno que cresci de mão dada com o vazio e com uma ligeira dose de incompreensão.

E quando eu pensava que a vida não podia falhar mais, que já tinha cometido demasiados erros, ela voltou a falhar… Aos poucos começava a descobrir a felicidade ao lado de uma família que parecia saber gostar de mim de verdade, parecia saber compreender-me, ouvir-me, trabalhar as minhas emoções e as saudades de que sempre tinha sido feito; mas um dia acordei para a vida e percebi que afinal continuava a viver numa grande mentira. Quando menos esperava, disseram-me que eu estava a mais naquela casa, que eu não fazia verdadeiramente parte daquela família porque a verdadeira família que aquelas pessoas formavam parecia querer desmoronar-se por eu estar ali. Pediram-me desculpas – quando se costuma dizer que as desculpas não se pedem, mas evitam-se – e disseram-me sem o sentirem que o meu lugar não era ali. Que eu não pertencia àquela família e que tinha que voltar para o lugar que conhecia desde sempre: a instituição.

De coração despedaçado e de lágrimas de desgosto, desilusão e muita incompreensão, fiz as malas, despedi-me com um olhar esmagador de mágoa e parti, carregando comigo a dor do desapego, do abandono e uma nova versão da solidão, mais carregada e dura. Senti que era um fardo para aquelas pessoas, era todo um recomeçar de novo.

A vida preparava-se para falhar intensamente outra vez; desta vez decidiu falhar-me na adolescência com revolta, fraca maturidade e parca experiência. Fiz os dezoito anos, num dia que deveria ser diferente – porque dezoito anos só se fazem uma vez na vida – mas acabou por ser um dia igual a tantos outros. Alegria disfarçada, mascarada pela tristeza, vazio e solidão que me construíam e consumiam.

A vida falhou-me profundamente nos amigos que, infelizmente, nunca foram os melhores do mundo, nunca foram os amigos com que sonhei e aqueles que mais desejei. Durante toda a minha adolescência fizeram sempre por levar-me por maus caminhos, aproveitando-se da minha fragilidade. Cometi muitos erros, por irresponsabilidade, por medo, por alguma imaturidade, por não ter referências, por ouvir as pessoas erradas e seguir mas exemplos. Se a minha vida não tinha um rumo definido, tornou-se um beco sem saída; no entanto, consegui ter forças suficientes para me levantar do chão e seguir em frente, decidi afastar-me das pessoas que até então conhecia, deixei a instituição onde sempre tinha vivido e decidi ficar por minha conta e ir à aventura. Fui para a escola, tentei empenhar-me ao máximo, venci obstáculos, chutei dificuldades e lutei, fiz sempre tudo sozinho.

Acabei o secundário e isso trouxe cor e alegria à minha vida, pela primeira vez em muitos anos e meses, consegui sorrir e sentir-me feliz e orgulhoso, principalmente, consegui sentir-me útil à minha curta existência. Tinha feito algo de bom.

Não estava nos meus planos seguir para a faculdade, não tinha dinheiro, não tinha como me sustentar, como pagar livros ou propinas, muitas vezes nem tinha uns trocos para comer, quanto mais quase um ordenado inteiro para gastar em propinas. Resumi-me ao décimo segundo ano e logo que pude tentei começar a procurar um trabalho, levou algum tempo.

Nos intervalos da minha curta vida, fui “moço de recados”, ajudava aqui, ajudava ali, fazia um pouco de tudo e ajudava em tudo o que podia. Aquilo que ganhava não chegava para sobreviver, não me permitia comprar umas sapatilhas novas para poder deitar fora os velhos ténis rotos que calçava havia anos. Não me permitia viver a vida desafogada que imaginava; mas ainda assim permitia-me ter o que comer todos os dias; no entanto, esse minúsculo trabalho a título precário depressa teve o seu fim, depressa as pessoas começaram a reconhecer-me; infelizmente, o rótulo de “gaiato da instituição” andou sempre comigo e perseguiu-me sempre.

Depressa as pessoas se cansaram do sempre disponível moço de recados, fiquei sem o pouco dinheiro que conseguia amealhar e sem o trabalho que me fazia levantar feliz e com vontade todos os dias. O tempo foi passando e a minha vida parecia querer desorganizar-se e desmoronar-se como um simples castelo de cartas. Sempre que me aproximava de alguém, as pessoas pareciam ter vontade imediata de me fugir, nem me deixavam acabar de completar a primeira frase: viravam-me as costas e afastavam-se. Seguiam com a sua vida e continuavam a andar.

Comecei a perder a pouca esperança que tinha conseguido recuperar, a pouca alegria que me fazia viver e o parco sorriso que trazia no rosto. Passaram-se dias, semanas, meses e nada mudou, já tinha que contar de novo os trocos para poder tomar o pequeno-almoço. À medida que o tempo foi passando a passos largos, fui ficando por ali – pela rua – perdido, esquecido, abandonado e sozinho. Passei de moço de recados, a moço de rua: sentado no asfalto, de lata aos pés e mão estendida sobre a vida. Talvez assim ela me conseguisse devolver algum pequeno fragmento da minha existência e do meu real caminho.

Ironia do destino, a vida voltou a falhar e pôs a minha família adoptiva de novo no meu caminho. Passaram por mim, numa tarde chuvosa e friorenta; eu sentado no asfalto molhado, coberto por um papelão encharcado em água. Passeavam felizes, como se a vida lhes trouxesse bonança todos os dias, olharam para mim de sorriso irónico pintado no rosto e aquele desdém facilmente decifrável no olhar. Fizeram de conta que não me conheciam; mas lá no fundo eu sabia que eles sabiam muito bem quem eu era, de certeza que não me teriam esquecido. Pelo menos queria acreditar nisso, era essa simples certeza que me fazia viver e me mantinha preso à vida.

As reviravoltas que a vida dá… Tantas e tantas vezes parece uma autêntica montanha russa.

Porque é que a vida falha?

Talvez a resposta seja mais fácil de dar do que as pessoas pensam:

Porque viver também é errar. E falhar.

PORAna Ribeiro
FONTEEscreViver
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