Acontecimentos que nos despertam!

Há acontecimentos que nos despertam. E após esse despertar algo em nós muda. Muda a nossa maneira de ver as coisas. Muda a nossa maneira de nos vermos e de ver os outros. E ao mudar, faz-nos tanto sentido relativizar. Tornamo-nos mais leves separando “águas”. Tornamo-nos mais leves porque não dizemos “nins” e sim, “sins” e “nãos”.

Passamos a dar tempo aquilo que nos pode transformar para melhor e a quem também tem esse poder. Passamos a ser seletivos quanto ao nosso tempo de antena e ao tempo que damos a tudo e a todos.

Esses que despertam com determinadas dores do caminho, param e aprendem a ouvir-se a si mesmos. Como se de um “stop” se tratasse para os obrigar a parar por não irem na direção que a alma deles queria que fossem. Como se esse caminho por onde iam não tivesse o dom de os levar a lado nenhum. O ego por vezes fala alto e deixamos de ver aquilo que realmente nos serve da mesma maneira que também nos cega em relação a quem também nós servimos. Há caminhos para cada um de nós e há pessoas que se cruzam em determinados caminhos e com determinadas pessoas. Assim se passa com todos. Uns chegam para ficar, outros chegam apenas de passagem. Talvez aqueles que se apercebem disso, estejam nesse caminho que os desperta e lhes diz em jeito de intuição pura se é ou não por aí.

Esses que despertam descobrem o quão saboroso é sentirem-se em paz e em companhia cada vez que optam por estar apenas no seu canto. Esses que despertam percebem a diferença que existe entre estar só e estar acompanhado. Na verdade, há pessoas que quando optam por estar no seu canto sentem-se tão bem acompanhadas consigo mesmas. E por outro lado, há tantos outros que se sentem tão sozinhos e na solidão quer estejam com alguém ou com eles mesmos. Esses talvez ainda não se tenham dado ao tempo para estarem simplesmente consigo. Por isso, estar sozinho e consigo é tão diferente da palavra solidão.

Esses que despertam, no início andam um pouco perdidos enquanto se dão ao tempo para sarar as feridas que a vida lhes deixou pelo passado. Mas depois, esses, percebem que o passado ficou lá atras e as feridas também. Sararam-nas e aos sará-las, também eles se sararam. Perdoaram. A eles mesmos e a quem os magoou. Perdoaram-se a eles mesmos por perceberem que nem sempre se tiveram em conta na linha da frente. Perdoaram-se por sentirem que pelo caminho, por vezes, se esqueceram de olhar para os seus olhos refletidos num espelho para simplesmente dizerem, sem aquela cena narcisista, e sim saudável “gosto tanto de mim”. Perdoaram-se por sentirem que sempre gostaram de dar abraços, mas que nem sempre se abraçaram nos seus próprios braços.

Esses que despertam, acalmam-se em si quando as incertezas do caminho lhes trazem algum tipo de ansiedade. Respiram fundo e só depois dão as respostas mais crescidas.
Esses que despertam, gostam de alargar em conjunto a linha dos lábios e deixar-se ficar entre espaços que o abraçam e onde é capaz de abraçar.

Esses que despertam andam serenos independentemente do caminho que fizeram até se encontrarem consigo mesmo.

Se a vida é fácil? Nem sempre. Mas o grau de dificuldade ameniza com as ferramentas que temos e encontramos dentro de cada um de nós. Todos as temos. Basta parar e no silêncio e com tempo, no nosso lado inverso, as encontrar.

Por detrás da íris de cada um, está um olhar perante a história que tem escrito pelo caminho. Estão os sonhos, os desejos, as palavras, os afetos, os enredos, as peripécias, os caminhos a direito, as subidas, as descidas e as curvas. Estão os erros que se tornaram assertivos por fazerem crescer e aprender. Está a alegria e alguma nuvem. Está o Outono e a Primavera. Estão os amores de sempre e aqueles que por apenas passarem também não chegaram em vão. Estão as vitórias, as amizades e a nossa gente do bem. Estão os das estações que facilitaram e a quem nós também facilitámos uma “estação”. Estão tantas páginas já vividas e outras tantas ainda para viver.