A vídeo-chamada

Será que me esqueci de desativar um alarme, ou seria só um lembrete de aniversário!

Um toque pouco comum saia do meu tablet, com esse toque um sorriso e uma sensação de euforia. As minhas mãos suavam e o coração, tal e qual um grupo de Kodo, saltava-me do peito.

Era o teu nome que aparecia no ecrã.

Mas porquê uma vídeo-chamada? Eu mal consigo falar contigo, o medo de dizer algo errado faz da minha boca um túmulo.

Comecei uma contagem decrescente a partir do dez para ganhar coragem de atender.

10… Inspirei, suspirei;
9… Fechei os olhos, inspirei mais uma vez;
8… Sem conseguir sequer expirar, o meu dedo indicador ganhou vida própria e foi direto ao botão verde.

-“Olá! Estavas com medo de atender?”
Nunca cheguei a perceber o que se passou, porque razão não consegui acabar a contagem da coragem.

Foi destino, um espasmo, uma loucura… Talvez os defuntos um dia me respondam.

Mas sem tempo para mais contagens decrescentes, tinha que responder.
Meio envergonhado, de voz trémula e boca cheia à pressa, de penne acabado de cozinhar.

-“Não! Medo, claro que não. Eu estava a jantar…”
Mais uma vez confesso, porque tu não me consegues ouvir. Paralisei, não sabia o que fazer ou dizer. Olhava para o teu nome no ecrã, com a mesma sensação do meu primeiro beijo. O destino encarregou-se de atender a chamada por mim.
Foi mais de uma hora de conversa, com pouco sentido, ou mesmo quase nenhum. Das poucas palavras que te dizia, esboçavas um sorriso ou soltavas uma gargalhada.

Por vezes passava o dedo pelo tablet, como se pudesse tocar no teu rosto e sentir as pequenas rugas que se prolongavam com os teus olhos sempre que te rias.

PORRafael Barata
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