A vida é incerta!

Se há histórias que merecem ser contadas, são aquelas em que a imprevisibilidade e o acaso acontecem e esses são os ingredientes principais da nossa história. Da minha história e do Rui.

Quis a vida e o destino – amantes das horas vagas – que nos cruzássemos, para assim construirmos novas aprendizagens e tirarmos mais algumas lições de vida.

Regresso a passado, não gosto muito de o fazer porque há sempre uma mágoa e uma angústia que me fragmentam, um vazio que não consigo colmatar com nada, uma ausência de todo inexplicável; mas por outro lado, há uma alegria e uma saudade que me consomem. É um enorme misto de emoções que ainda não consigo gerir muito bem, por muito tempo que tenha passado.

Recuar no tempo, pensar na nossa história, ajuda-me a lembrá-lo e a mantê-lo vivo em mim, na minha vida e na minha memória, gosto da presença omnipresente dele. Era o meu herói, o meu guerreiro, a minha inspiração; nunca me hei-de esquecer de tudo aquilo que, inevitavelmente, ele me ensinou.

Era o Verão de 2010 – um verão excepcionalmente intenso, apaixonante e envolvente – tinha tirado a tarde para me encontrar com as minhas companheiras de sempre na esplanada do costume; ao que parecia a Débora tinha algo interessante para contar e eu estava desejosa de saber o que era.

A esplanada que costumávamos frequentar ficava na linha da praia, em plena marginal, mesmo em frente ao mar. Tínhamos uma vista privilegiada, era um lugar que todas gostávamos muito e ao qual íamos desde os tempos do secundário. Era uma esplanada sossegada, agradável e bem frequentada. Mal chegamos, sentamo-nos logo numa mesa vazia, a um canto e começamos os nossos mexericos. Por entre gargalhadas, boa-disposição e muitas conversas, assim passamos a primeira meia hora.

Entretanto, Débora falou-nos do Rui: um antigo colega da turma dela do décimo segundo ano, que há muito tempo que andava desaparecido. Tinha desistido de estudar a poucos meses de terminar o secundário e desde essa altura que nunca mais tinha sabido nada dele. Débora e Rui eram grandes amigos e com o passar do tempo tinham perdido o contacto. Visivelmente chocada e até abatida, ela contou-nos que tinha sabido por amigos comuns que as más companhias dos últimos tempos tinham levado Rui por maus caminhos, tornando-o toxicodependente

No dia anterior tinha visto Rui a deambular sozinho nas imediações daquela mesma esplanada: visivelmente magro, pálido e desengonçado. Andava pelas mesas a pedir dinheiro às pessoas com a desculpa de que era para cigarros. Fiquei chocada com as súbitas mudanças, mal conhecia o Rui; mas sabia que até então ele era um jovem ajuizado e cheio de sonhos e objetivos.

O que me uniu ao Rui? Talvez arrisque a dizer que foi o acaso da vida, num nos dias que se seguiram àquela conversa na esplanada, cruzei-me com ele junto à praia: estava sentado numa rocha a olhar o mar, corriam-lhe as lágrimas. Apesar do aspecto desleixado, desengonçado e atarracado, não estava muito diferente daquilo que eu conhecia; aproximei-me dele e disse-lhe que era amiga da Débora. Perguntei-lhe se precisava de alguma coisa, se queria que eu chamasse alguém ou se queria falar.

Disse-me apenas que precisava de ser perdoado pela vida e de recomeçar tudo de novo; aquele desabafo foi mote para uma conversa longa que me marcou até hoje. Rui contou-me que há muito que tinha perdido o controlo da situação, que não sabia o que fazer à sua vida: já não tinha casa para morar ou dinheiro para viver. Disse-me que pretendia tentar curar-se para mudar de vida; mas que não estava a ser fácil porque não tinha ninguém que o ajudasse, há muito tempo que a sua família tinha desistido dele.
Não sabia o que pensar. Pediu-me que não contasse a sua história a ninguém e contou-me que se tinha afastado da Débora porque não queria ser uma má influência para ela. Prometi que o iria tentar ajudar de alguma forma…

Decidi contar tudo à Débora – indo contra a vontade dele – e juntas, procuramos soluções; algumas semanas mais tarde, o Rui aceitou tratar-se numa clínica de reabilitação, foi um processo longo, duro e bastante penoso. A força e espírito de sacrifício do Rui inspiraram-me e de certa forma fizeram-me apaixonar por ele; quando falamos pela primeira vez sobre o que sentíamos um pelo outro, Rui disse-me que não merecia que eu me apaixonasse por ele porque ele não era a pessoa ideal para mim. Que não queria que o seu passado me assombrasse o resto da vida.

Comovi-me com a sua humildade e acima de tudo com a sua frontalidade e preocupação, disse-lhe que o mais importante era o presente e que o passado era só mesmo passado, que a seu tempo ele iria conseguir superar o vício das drogas. Olhou-me intensamente nos olhos, sorriu e inesperadamente beijamo-nos: um beijo intenso, apaixonado e longo. Foi um momento inexplicável e inquietante, desassossegado e de cortar a respiração.

Passou ano e meio desde que o nosso primeiro encontro aconteceu, o Rui quase conseguiu vencer a dura batalha contra o vício das drogas: deixou de fumar e nos meses em que conseguiu ficar “limpo”, conseguiu aos poucos ir recuperando a vida que tinha perdido. Foi uma das suas maiores conquistas, nunca o tinha visto tão feliz e concretizado, estava sempre a dizer-me de sorriso nos lábios e olhar especial que tinha sido uma das suas maiores vitórias.

Mas, infelizmente, eu e o Rui já não estamos juntos. As sucessivas recaídas que ele foi tendo, desmotivaram-no e fizeram com que ele achasse melhor afastar-se de mim para não me prejudicar. Custou-me muito aceitar a sua decisão, mas sabia que era a decisão mais acertada por muito que custasse e doesse, eu amava-o e ainda o amo. Tenho pena que perante uma situação como a dele, seja tão difícil voltar atrás. Tenho pena de lhe ter perdido o rasto; mas sei que a sua atitude foi com o intuito de me proteger.

Concluí que nada é dado como garantido. E já me ia esquecer de um pormenor muito importante, ontem recebi um telegrama especial:

“A vida é incerta. E o amor um fragmento incompleto de alguém.
Assinado: R”

Sorri emocionada. Era ele. E tinha toda a razão…

PORAna Ribeiro
FONTEEscreviver
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