A sós


Hoje caminhava mais uma vez sozinha pela cidade. O vento arredava os meus cabelos e arrepiava a minha cara.

A minha mente continha tudo o que se possa imaginar, mas por fora, por fora parecia apenas vazia. Mais uma, a caminhar sozinha, de roupas escuras e olhar frio.

Sou apenas mais uma, que caminha sozinha, adormece e acorda sozinha, apenas mais uma que se comprometeu com a solidão.

Mais uma que não se permite sentir, para que não doa.

Sou apenas mais uma, que simula não ter coração, que tende em ser fria e a magoar com verdade.

Amarga, com uma postura de quem está sempre em guerra, de quem nunca larga a espada e o escudo, de quem não se fere, pois já se feriu de mais.

Durante muito tempo eu amei a solidão, eu ocupei a minha cama por inteiro, enchi o sofá, e todos os canais da TV eram escolha minha.

Demorei horas no banho, onde cantava e relaxava com uma taça de vinho, eu andei nua pela casa pelo tempo que eu quis. Eu não tinha de me preocupar por ter a camisola entalada nas calças do pijama, nem as meias por fora. O cabelo desastroso era igual as minhas refeições, à hora que eu queria.

Eu vesti o que quis, sai quando eu quis, fiz tudo o que me apeteceu fazer, até não me apetecer fazer mais nada, sozinha. Até ocupar só um lado da cama, um assento do sofá, com a TV no mesmo canal só para me sentir menos só.

Toda a mulher só, tende a achar que vai amar a solidão para sempre, acha que todo o sentimento é descartável, que é melhor ser fria, que é bom só nos termos a nós, contar só com nós próprios e não nos apegarmos a ninguém. Que o sexo oposto só serve para nos satisfazermos quando queremos, e deitar fora. Que a solidão nos permite ser e fazer o que quisermos, porque não devemos nada a ninguém!

Mas nunca nenhuma mulher solitária, falou das vezes, que lhe custou a adormecer e acordar sozinha, das vezes que desejou ver alguém a jantar do lado oposto da mesa, das vezes que em vez do fone de ouvido, queria alguém para caminhar do lado.

Nunca nenhuma mulher solitária falou que às vezes queria sentir amor e dar amor a alguém.

Isto porque a solidão tomou conta delas, mais do que qualquer outro amor o fez, e elas entregaram-se a ela, não sabendo dividir-se com mais ninguém.

E quando o amor lhes bate a porta, elas simplesmente desvalorizam, como se isso nem existisse. Mas no fundo elas só não querem ter o trabalho de tirar a armadura em vão.

Acontece que por vezes, mesmo não querendo, o amor é insistente, e mesmo com resistência, ele acaba por entrar.

E embora continuando solitárias e frias, elas já permitem mais alguém ao seu lado, e sem querer vão-se dando e derretendo.

Vocês não sabem, mas elas só contam a verdade à solidão, na tua frente vão sempre agir com frieza, até que proves que vai valer a pena ela pousar o escudo e a espada.

Até que proves que nem todo amor dói, que nem todo o amor é guerra.

E hoje enquanto caminhava, percebi que só quem olha além do olhar frio, só quem suporta o processo de desapego da solidão, só quem consegue ver o lado mais doce, mesmo só mostrando fel. Só essas pessoas conseguem resgatar uma mulher entregue a solidão.

E que sorte têm, pois nem sonham que a força que ela teve para amar a solidão, vai ser o dobro da força com que ela irá amar.

Pois um dos lados positivos da solidão a longo prazo, é que quando ela se desapega de nós, é porque já estamos prontos a amar. Tanto ou mais, do que o quanto amávamos estar sós.

E é então que ela se solta de toda a frieza, e mostra todo o seu lado doce, todo o amor que ela tem para te dar. O escudo e a espada dela, estão agora guardados.

Para que te possa abraçar e mostrar, que tal como ela achava que o amor não existia, ela também é capaz de acreditar nele, e amar-te.

Enganem-se todas aquelas que dizem não ser capazes de amar de novo, todas as que dizem que vão ficar entregues à solidão, porque em algum momento da vida, a solidão vai deixar-vos entregues ao amor. Para ensinar que, tal como caímos na solidão, amar é cair do precipício, na esperança de que alguém nos dê a mão e caia connosco.

E sem te atirares, já mais saberás se alguém te deu a mão e caiu contigo.