A outra…

Hoje em dia facilmente somos considerados insensíveis e até mesmo preconceituosos só por chamarmos as coisas pelos nomes, por sermos sinceros e frontais quando toda a gente tenta pôr paninhos quentes nas situações e vitimizar os culpados para que eles, coitados, não se sintam tão mal com a confusão em que deixaram a vida de alguém. Parece que o respeito virou coisa do passado e o que é moda agora é compreender, aceitar, tolerar os erros dos outros, independentemente dos danos colaterais arrasadores. Não consigo entender. Tanto abominam e criticam os rótulos, mas, ao mesmo tempo, colocam-se tão a jeito deles. Um pouco ridículo, não?

Concentremo-nos num rótulo em particular que faz tanta comichão a quem o recebe, “a outra” (ou “o outro”). Normalmente a pessoa em causa recusa-se com todas as forças que tem a admitir que merece esse rótulo. É maldosa demais, não é? Essa ideia de estar no meio de duas pessoas que provavelmente já se amaram, de ser a causa do sofrimento imenso de uma delas, às vezes do sofrimento das duas. Então por que raio se põem precisamente na mira deste rótulo tão ofensivo que, na maioria das vezes, vem acompanhado por outros quantos ainda mais ofensivos? Não se sabem controlar? Eu consigo compreender que por vezes a paixão nos leva a desligar a razão. Quando há sentimentos envolvidos a linha entre o certo e o errado torna-se ténue. Contudo, convém não esquecer que não são só os nossos sentimentos que estão envolvidos neste nosso erro. Existe outra pessoa a ter em conta, outra pessoa que vocês estão a pisar violentamente e que em princípio merece respeito. Se não merece, ele que a afaste e, se o rancor falar mais alto, que a magoe, mas sozinho, não descendo ao nível dela ou ainda mais baixo com uma ajudinha vossa. E não se esqueçam de uma coisa: vocês só conhecem um lado da história, o que convém.

Quanto às vossas razões, por favor não venham dizer que se apaixonaram, que não sabiam o que estavam a fazer, que estavam cegas de amor, que não estavam à espera que fosse tão longe e tivesse consequências tão graves. Têm 10 anos? Ainda acreditam no Pai Natal? Não, pois não? Então não há justificação válida para a porcaria que fizeram; metam isso na cabeça e parem de culpar a namorada por ser insegura quando deveriam culpar o cobarde por não ter tido a decência de admitir, nem a ela nem a ele mesmo, que acabou. E, acima de tudo, não achem que podem fugir à vossa parte de culpa só porque “ele é que estava comprometido” e vocês foram apenas lutar pela vossa felicidade. Estão a esquecer-se de um pequeno detalhe: foi à custa da felicidade de alguém. O vosso egoísmo não há como negar.

A partir do momento em que tomam conhecimento da existência de uma pessoa que vai sofrer com as vossas acções e decidem fazer absolutamente nada, o rótulo passa a ser justamente vosso e passam a ter de dividir a culpa a meias com ele, porque existem sempre opções, não venham com tretas. Ninguém vos apontou uma arma à cabeça, pois não? Porque não fazê-lo decidir entre as duas se o querem mesmo com a probabilidade alta de que ele vos trate da mesma forma desprezível que tratou a namorada? Ou, melhor, porque não mandá-lo imediatamente dar uma curva se tiverem amor próprio suficiente para isso? Porquê contentarem-se com estar com alguém que já está com alguém e não está 100% disposto a começar tudo de novo só com vocês? É oficial, são “a outra”. Convençam-se disso, é o primeiro passo para deixarem de o ser se odeiam assim tanto que vos tratem como tal. Ou, então, simplesmente admitam que são uma vergonha como pessoa e mulher (ou homem) e passem por cima de quem quiserem à vontade, estão no vosso direito por mais repugnante que isso me pareça. Só não sejam hipócritas e exijam dos outros uma compaixão que vocês não conseguiram ter nem esperem empatia e paciência com razões fracas para o que fizeram e andem por aí muito ofendidas com o rótulo que vos atribuíram e que, de facto, vos pertence. Se não gostam dele, não se ponham a jeito.

PORRaquel Simões
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