A minha melhor amiga suicidou-se… (Relato Real)!

Quando descobri que tinha cancro da mama, inicialmente fiquei assustada, pensei no meu sonho de ser mãe, pensei no meu namorado, pensei na minha família, pensei que tudo o que eu havia planeado poderia acabar ali, inclusive a minha carreira e o meu sonho de um dia me tornar uma modelo conceituada e reconhecida a nível internacional, porque o meu país já o tinha conquistado, mas nunca, em momento algum dessa fase tão perturbadora ponderei a morte.

A morte nunca me assustou. Assustava-me tudo o que envolvesse os que amo, assustava-me a possibilidade de precisar abdicar dos meus sonhos e do meu trabalho, assustava-me o futuro. Como eu poderia enfrentar tudo aquilo?

Dos males o menor, a morte é certa, quer tenhamos cancro ou outra doença qualquer, a morte é certa quer aconteça na velhice ou ainda na adolescência. É a única certeza que carregamos connosco desde o momento em que nascemos. Nascemos para morrer. Temos sonhos, objetivos, planos para o futuro, estamos carregados de expetativas e tudo porque? Porque sabemos que um dia iremos morrer, não sabemos quando, mas é a única certeza que temos.

Então definitivamente a morte não me assustava nem um pouco, eu sabia que um dia esse momento chegaria e a morte não é aquele familiar distante que envia mensagem a avisar sempre que está prestes a chegar, a morte não avisa então porque haveria eu de me preocupar com ela.

Quando ela chegasse, estaria na minha hora. Mas e os meus sonhos, a minha carreira, a minha família, o meu namorado, os bebés que desejávamos ter? Isso sim assustava-me!

Ter de parar ali, ter de enfrentar o cancro, ter de terminar a minha carreira como modelo, ter de encontrar outro trabalho no qual me sentisse encaixada, ter de planear tudo de novo.

Logo eu, que sempre fui tão organizada. Precisaria reorganizar toda a minha vida em função de um problema de saúde.

Quando contei que estava doente senti todos os olhos postos em mim carregados de pena. Isso sim é muito mais perturbador do que a ideia de morrer, quer acreditem, ou não.

Preocupava-me com o meu cabelo, os meus longos cabelos pretos, e se ele caísse? Eu amava o meu cabelo, mas dos males o menor, nada que uma peruca não pudesse resolver.

Dos males, realmente o menor. Pior do que descobrir que tinha cancro, foi receber uma chamada às oito da manha, da mãe da minha melhor amiga. Maldita hora em que acordei para descobrir que ela tinha morrido.

A Patrícia, logo a Patrícia? Como era possível. Ela era saudável, não estava doente, tinha a vida organizada, tinha sonhos, planos, objetivos, tal como eu. Ela estava feliz e tinha-se suicidado?

Espera aí, ela não morreu de cancro, nem de um ataque fulminante, nem de qualquer outra coisa. Ela acabou com a própria vida. Como? Patrícia? Como? Tu estavas tão bem, todos os dias conversávamos, falavas de como o trabalho corria bem, falavas do teu namorado com um brilho nos olhos que causava inveja, falavas dos teus sonhos e mataste?

Qual o espanto de todos ao descobrirem que ela escondia os registos médicos todos, ela suicidou-se e sabem porque? Tinha depressão.

Costumávamos comentar entre nós, nas conversas entre o grupo de amigos, que pessoas depressivas não eram nada mais do que pessoas preguiçosas, que viviam naquele estado apenas para chamarem a atenção.

Bem, a Patrícia foi pró, nunca chamou a atenção de nenhum de nós, talvez porque os nossos comentários fossem desagradáveis demais, como poderia ela dizer que estava depressiva se todos os amigos criticavam as pessoas depressivas?

“Fulana tal diz que tem depressão, mais uma a querer chamar a atenção”, a Patrícia nunca chamou a atenção, tal como já disse, talvez se ela tivesse chamado mais a nossa atenção, talvez se ela tivesse contado que habitava dentro dela um monstro adormecido, talvez se ela tivesse desabafado as suas dores, só talvez… Nada disto teria acontecido e ela ainda estivesse entre nós e a mãe dela não precisasse encontrá-la dentro de uma banheira a jorrar sangue, com os pulsos cortados, o pescoço cortado…

Mas talvez se ela tivesse dito que estava depressiva, talvez comentássemos em segredo “olha esta agora quer chamar a atenção também”. Então ela guardou para ela, aparentemente saudável, trabalho estável, namoro feliz, família pacata, e uma dor insuportável dentro dela que a ameaçava todos os dias.

E eu com cancro nunca ponderei a morte, nunca pensei na morte, nunca fui assustada pela ideia de que iria morrer mais cedo ou mais tarde e a minha melhor amiga, que sempre esteve bem, matou-se.

O nosso grupo nunca mais foi o mesmo, fomos-nos separando desde então, cada um para seu canto, o tema Patrícia era quase proibido. A pessoa mais alegre do nosso grupo sofria do mal que todos nós julgávamos ser preguiça, a pessoa que fazia de tudo para manter todos com um sorriso desabava sozinha todas as madrugadas.

Depois da morte dela, todos mudamos e com razão não é? Se tivéssemos pensado de outra forma, ajudado, apoiado, cooperado na sua verdadeira felicidade, ela ainda estaria entre nós, talvez tivesse superado a depressão, assim como eu venci o cancro e não precisei de abdicar dos meus sonhos, da minha carreira.

Vocês todos pensam que o cancro é a pior das doenças, pois eu que poderia ter morrido com um cancro da mama, perdi a minha melhor amiga que se suicidou com depressão.

As piores dores nem sempre são as do corpo, são as da alma, são as que nos são invisíveis aos olhos.

As piores dores são as que nós mais julgamos. A depressão não é uma piada, é uma doença e se tu fazes piada sobre pessoas depressivas, tal como eu fiz um dia, repensa bem as tuas palavras, não imaginas como hoje é difícil acordar e saber que a pessoa que sempre me apoiou, acabou com a própria vida porque eu e todos os outros, não estávamos lá, não demos importância, não levamos a sério, aquele que é considerado o mal do século 21.

(RELATO REAL, SE CONHECES ALGUÉM COM DEPRESSÃO, NÃO JULGUES, NÃO CRITIQUES, NÃO MENOSPREZES, DÁ A MÃO E AJUDA, NÃO ESPERES ATÉ SER TARDE DEMAIS!)


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