A mente de um escritor…

Tinha tudo pensado. Estava a voltar a casa no comboio com o cotovelo no parapeito da janela, os auriculares nos ouvidos e atento à chegada do revisor. Súbitas frases a preencherem-me o pensamento. Anoto-as num bloco. Imagino um texto, uma tese, ou simplesmente um rascunho. Tudo o que surge espontaneamente, com a mesma espontaneidade se desfaz.

Durante a viagem uma rapariga loira entra na minha carruagem, de pasta na mão e com olheiras de quem pouco dormiu. Encosta a cabeça no banco, prepara o passe e vira a cara para o outro lado. De punho fechado, a apoiar a cabeça ligeiramente inclinada, tenho diversas epifanias. Existem pessoas que pensam que os escritores se fazem pelo que escrevem. Mas esquecem que um escritor começa por aquilo que pensa. Só uma mente calada é capaz de gritar alto. O silêncio é uma arma de dois gumes. Toda a imaginação é uma mistura míscivel de verdade e mentira. Todos os escritores são mentirosos. Mas nem todos os mentirosos são escritores. Uma boa mentira contém sempre um pouco de verdade. É tudo uma questão de perspectiva. Um amor que nunca tenha sido amor não pode ser outra coisa qualquer que não uma boa mentira. Irredutível mentira. Quando mentimos sobre o amor, mentimo-nos a nós mesmos. Alguém que escreva é alguém confuso.

Escreve-se pela urgência de um reencontro. Escreve-se para antecipar o mundo. Escreve-se pela mentira e pelo passado. O presente é somente a reafirmação do passado em nós. A rapariga loira de cabelos lisos esconde o passado num olhar debruçado em paisagens que certamente lhe são conhecidas. Eu debruço-me sobre o desconhecido. Uma paisagem em movimento é uma valsa. Mas quem dança? Um horizonte que separe o azul do mar e o azul do céu é o inicio da humanidade. Para lá desse horizonte vive apenas quem escreve. Porque de caneta na mão todo o horizonte é tinta preta, e todo o amor é de papel.

Há quem tenha as palavras na ponta da língua. Eu tenho-as na ponta dos dedos.


PELA WEB

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