A magia de viver num mundo onde existem outras pessoas!

Ensinam-nos, desde pequeninos, a não falar com desconhecidos. Como se os desconhecidos fossem seres extraterrestres e nos fossem deteriorar com todo o prazer. Entendo. As crianças são ingénuas e não percebem se lhes quiserem fazer mal. Ok. É compreensivo que os pais as tentem proteger.

Porém, a cada dia que passa, conhecemos pessoas novas que, até então, eram desconhecidas. Os nossos amigos já foram desconhecidos para nós.

A maioria das pessoas, depois de crescida, continua a agir como quando era criança e a desviar-se de desconhecidos. Não falam porque não conhecem. Mas esquecem-se que não conhecem porque não falam.

Não é por falares com uma pessoa desconhecida nos transportes públicos, num café, numa biblioteca ou numa discoteca que vais ficar sem um bocadinho, nem toda a gente é mal intencionada.

O que falta é confiar. Nós não confiamos. Somos seres desconfiados que vemos maldade em tudo, maldade em todos. Isso está errado. Enquanto a insegurança permanecer, nunca nos vamos entregar a ninguém, nunca nos vamos entregar à vida.
Posso dizer-te que se és desse tipo de pessoa que não fala com desconhecidos, que desconfia de tudo e todos, que vê maldade em tudo, então, perdes muito daquilo que a vida tem para te dar.

Já passei momentos muito agradáveis com desconhecidos. Alguns acabaram por se tornar conhecidos, amigos. Outros desapareçam da minha vida e nunca mais me cruzei com eles, mas recordo-os com carinho.

Já conversei durante longos minutos com algumas pessoas sem sequer saber o nome delas. E muitas despediram-se e foram embora sem eu nunca ter sabido o seu nome nem elas o meu, sem nunca lhes ter falado de mim nem elas me terem contado as suas histórias de vida.

Já tirei fotos de grupo com pessoas que não conhecia, já fui tomar o pequeno-almoço com pessoas que tinha acabado de encontrar na rua, já partilhei uma ou outra informação da minha vida com pessoas que nunca mais voltei a ver. Nenhuma dessas pessoas me arrancou bocadinho nenhum. Pelo contrário, todas me proporcionaram agradáveis conversas. Ri imenso com estas pessoas e elas riram-se comigo. Recordo alguns rostos e alguns nomes. Sei que é improvável que me volte a cruzar com algumas, mas não faz mal. Esta é a magia de partilharmos o mundo com tanta gente. Tanta gente como nós, como eu.

Isto não quer dizer que eu não tenha cuidados: não ando sozinha à noite na rua, por exemplo. Não quer dizer que se andar me vá acontecer alguma coisa, mas não estou livre de ser assaltada, violada ou outra coisa qualquer, é um facto.

Tenho consciência do mundo em que vivo e sei que as pessoas mal intencionadas existem. No entanto, há pessoas e pessoas e não é assim tão difícil vermos quando alguém está ou não com segundas intenções – pelo menos, nunca me enganei quanto a isso. Também não costumo socializar com um grupo de desconhecidos sozinha, tento levar sempre alguém do meu já grupo para que o contacto seja mais pragmático. E espanta-me que as pessoas não gostem de conhecer, de conversar com pessoas novas, pessoas diferentes que estão apenas de passagem num momento da nossa vida.

Fico estupefacta com as pessoas que não são capazes de responder sequer a um “Pode dizer-me as horas?” de um senhor de idade simplesmente porque não conhecem e “o homem podia estar com más intenções”. Podia dizer que não entendo esse medo, mas isso é mesmo falta de educação.

Insegurança gera insegura. Medo gera medo. Confiança gera confiança. Não temos que confiar plenamente, mas também não temos que desconfiar logo, há um meio termo, podemos ir dando conforme vamos recebendo, entregarmo-nos conforme se vão entregando a nós.

O mundo e a vida têm tanto para dar e nós enxotamos mais de metade disso para longe de nós.

PORCátia Cardoso
Partilhar é cuidar!

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