A História de Uma Mulher Perfeita

Confesso que esta história me tocou de alguma forma, não por me rever na situação, mas por imaginar o que seria estar na situação desta mulher.

Decidi partilhar com todos vocês pelo simples facto, de que, as pessoas são peritos em julgar as outras, sem conhecer o verdadeiro ser que está por de trás de uma cara menos sorridente ou um tom de voz mais arrogante.

Vale a pena ler!

“Na creche onde andava o Salvador ninguém gostava da mãe dele.

Todas as manhãs Maria do Carmo parava o Mercedes à porta do colégio e entrava para deixar o filho. Sempre elegante, bem vestida e cheirosa despedia-se dele à porta da sala com um longo abraço e muitos beijinhos e voltava a sair. Se encontrava a educadora era seca e breve na conversa e nunca se detinha em trocas de impressões com outras mães, que a consideravam pedante e antipática. A meio da tarde, fresca e linda como se o dia se tivesse esquecido de passar por ela, lá ia ela buscar o filho que corria para os seus braços assim que a via assomar à porta da sala. E saía no mesmo registo distante.

Arrogante, diziam umas. Tem a mania, diziam outras.

Nas festas da escola era quando o marido aparecia. Alto, engravatado, bem constituído, bonito e sorridente, encostava-se com a mulher num canto do salão e não trocavam uma palavra com ninguém, apenas um cochicho cúmplice e esporádico entre eles. A presença do casal suscitava sempre suspiros nas mulheres, pensamentos menos decentes nos homens e alguma inveja em todos eles.

Certa tarde, quando regressava a casa, Maria do Carmo teve um acidente. Nada de grave. Numa rotunda, a carrinha à sua frente travou subitamente e ela, distraída que ia nos seus pensamentos, reagiu tarde demais. Depois de verificar que estava tudo bem com o filho e consigo, saiu do carro para verificar os danos e acertar os detalhes do seguro com o outro condutor. Estava muito nervosa e isso refletiu-se nos seus modos e nas ofensas que dirigiu ao senhor contra cujo carro tinha esbarrado.

O assunto resolveu-se, mas atrasou-a e acabaram por chegar a casa mais de uma hora depois do habitual. O Mercedes entrou no portão do condomínio, com os grandes pneus a fazerem estalar as pedrinhas do caminho de acesso à moradia, despertando a atenção do jardineiro, que um pouco adiante regava o relvado comum.

O carro do marido já lá estava. Sem acordar o filho, que dormia na cadeirinha no banco traseiro, Maria do Carmo estacionou em frente da garagem e entrou em casa. Ao vê-la passar, o jardineiro mirou-a e apreciou a sua beleza.

Pouco depois Maria do Carmo surgiu de novo. Vinha um passo atrás do marido, que parou em frente do carro e cruzou os braços enquanto avaliava a amolgadela perpetrada pela esposa. Visivelmente irritado, ele gesticulava e fazia perguntas, visivelmente nervosa ela acenava e respondia. A certa altura ele voltou-se para ela, avançou o passo que os afastava e, sem mais uma palavra, enfiou-lhe uma bofetada que lhe projetou a cabeça contra o muro. Avançou um passo mais e logo desferiu outra que a deixou caída no chão.

Perante aquilo, o jardineiro paralisou, sem conseguir desviar o olhar.

Ao lado do carro, no meio da rua, o marido, instigado por uma fúria descontrolada, apenas comparável, talvez, à fúria de um homem que vingasse a morte de um filho, desferia pontapés a eito sobre a mulher. Sobre o peito, pernas, cabeça e rosto da mulher.

Mas quanto mais o marido lhe batia, mais envergonhado o jardineiro se sentia por estar a olhar.

Sentia que estava a intrometer-se na intimidade conjugal, que aquilo era a vida deles, que não devia estar ali.

Um movimento dentro do Mercedes desviou-lhe a atenção. Preso à cadeirinha, o pequeno Salvador chorava e gritava sem que alguém o escutasse ou prestasse atenção.

Impotente, perturbado, sem saber o que fazer, o jardineiro afastou-se.

Nessa noite jantou com uns amigos e, enquanto contava esta história, chorou. Devia ter feito alguma coisa, devia ter ido lá, devia ter salvo aquela mulher e aquela criança. Devia ter morto aquele monstro. Mas não fez. Não foi. Não salvou. Não matou. Nem sequer chamou a polícia.

Nessa noite, o jardineiro não dormiu.

Assim que o dia nasceu o jardineiro preocupado plantou-se de novo a regar o relvado comum. Precisava de ver que estava tudo bem, que tinha ficado tudo bem. Esperou.

Às nove em ponto, bem vestida, bem cheirosa e bem maquilhada, Maria do Carmo entrou no Mercedes e foi levar o filho à escola.”

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