A Europa está em crise, mãe!

Aqui, desde o lugar que há vários meses escolhi para viver, para reconstruir a minha vida e para seguir o meu caminho, olho para o mundo com tristeza, desilusão e desprezo. Não reconheço este mundo em que habito, no qual se integra o país onde nasci. Não foi assim que o idealizei, não são estas as pessoas em quem eu desejo acreditar e que, na verdade, me conseguem transmitir segurança e oferecer a estabilidade que procuro e preciso.

Não reconheço as pessoas que dizem lutar pelo meu país; concluí há três anos o curso de relações internacionais que foi o que sempre quis e sonhei e a partir desse momento comecei a compreender o que move tanta gente. O que faz com que as pessoas – de um momento para o outro – sejam olhadas como se fossem simples conjuntos de números em vez de vidas humanas, e a forma como o dinheiro e o poder conseguem valer fortunas maiores que a própria existência.

Ter percepção desta realidade e conseguir compreender o mais fundo destas questões tem-me deixado num verdadeiro desassossego; por detrás do desemprego que assola milhões de famílias, que leva milhares de jovens às ruas em busca de um sentido para a sua vida, está um conjunto gigantesco de empresas e pessoas que vêm no desemprego uma forma de lucrarem milhões e enriquecerem à custa de gente simples e humilde, que nada tem a ver com fortunas, milhões, altos cargos e empresas. Apenas procura um trabalho e um salário fixo ao fim do mês, nada mais. Tão simples quanto isso; mas tão complicado aos olhos de toda esta gente poderosa.

Lembro-me perfeitamente do momento mais chocante que o meu curso me possibilitou, a um ano de terminar a licenciatura fui fazer Erasmus para uma pequena localidade na Alemanha e se até então eu não tinha plena consciência da verdadeira realidade que se passava à minha volta. Em pouco mais de três dias, choquei de pé e de frente com ela.

Uma localidade pequena – tão pequena que tudo estava mais perto do que era imaginável – acolhedora e simpática, que estava há dois anos sob a alçada da aclamada crise financeira e do indesejado desemprego; ali não havia grandes superfícies comerciais, nem agências bancárias, nem colégios privados. Havia uma pequena mercearia ao fim da rua e uma escola velha que servia de estabelecimento de ensino, ali lutava-se todos os dias por um dia melhor. Usava-se mais a bicicleta que o automóvel, os combustíveis estavam demasiado caros para as pessoas se poderem dar ao luxo de terem um carro, precisam de fazer trajectos mais longos? Apanham o autocarro mais próximo, se houver moedas para isso.

Senti todos os dias o silêncio pesado nas ruas, o semblante duro das gentes quando não há temas de conversa que amenizem a dor de quem luta todos os dias. Num dos muitos dias em que permaneci naquela localidade, saí à noite para jantar e numa das ruas principais vi o lado mais triste e duro da vida: um jovem. Um jovem como eu, praticamente da minha idade, com sonhos – se calhar – idênticos aos meus; ali deitado no asfalto, em cima de um papelão velho, coberto com um farrapo de pano.

Junto a ele tinha um cartaz que me cortou a respiração, aquele jovem que eu desconhecia, era português como eu, tinha acabado de se licenciar em medicina – segundo o que dizia no cartaz – e procurava apenas juntar dinheiro para regressar a casa. Fiquei de coração partido perante a dureza da vida e o desespero que senti naquelas frases curtas, formou-se dentro de mim uma enorme revolta. Revolta por ver ali um jovem, da mesma nacionalidade que eu, naquelas condições degradantes, quando o que ele mais merecia era estar ao lado da sua família, no seu país, e ter a vida que qualquer jovem merece: recheada de sonhos e conquistas.

Não é assim que se trata quem pode efectivamente fazer evoluir o mundo, com novas ideias, novas descobertas e uma nova esperança. Quem nos ensina a lutar e a transformar derrotas em vitórias e a não desistir das suas convicções e que é capaz de deixar lições de vida. Não é mesmo e isso angustia-me por ver que não é possível confiar em quem ao início nos deu tanta confiança. Desde que apareceu o pequeno mundo ao qual quisemos apelidar de Europa, que acabamos por lhe confiar tudo: a nossa vida, a vida das pessoas que mais amamos, a nossa felicidade e até o nosso emprego. Na esperança que as sucessivas mudanças nos oferecessem uma vida melhor e mais digna.

Mas o que vimos foi precisamente o contrário… Revoltei-me pelo facto da aclamada Europa deixar as pessoas chegarem a situações como aquela, pela forma desorganizada e tenebrosa como os países se encontram por não verem esperança, nem soluções para a crise, para o desemprego e para os seus problemas resultantes da irresponsabilidade de quem diz governar-nos.

E o estágio termina, regressei ao meu país sem nunca chegar a saber o desfecho da história daquele jovem médico, lamento não ter tido oportunidade para o ajudar, que era o dever do país a quem chamam de Portugal. Um Portugal, longe de ser aquilo que eu mais desejaria que fosse, capaz de pensar mais nas suas gentes e menos nos bens materiais, nos luxos e nas fortunas.

Não é o dinheiro que faz de Portugal aquilo que ele é: são as pessoas. E quando se confundem fortunas com pessoas, um país não anda para a frente: esmorece e retrai-se.

Passaram-se dois dias e do nada, a minha vida muda radicalmente, acordo pela manhã e apercebo-me do caos em que me encontro. Da revolução que se formou em tão curto espaço de tempo, sem me dar tempo de fazer nada. Faço as malas à pressa e saio para a rua, só me resta fugir, como se quisesse fazer parte desta guerra, à qual não pertence e que nada me diz. Mas tenho pena: pena do mundo em que nos inserimos e das pessoas que lutam por uma vida melhor sem conseguirem obter os resultados que esperam.

O meu telefone toca, sinto o desespero que me espera do outro lado da linha: é a minha mãe. De preocupação na voz, e lágrimas imaginadas no meu pensamento, pergunta-me o que se passa, se estou bem, que tinha visto na televisão o que se passava no país onde vivo. Para não a preocupar, digo-lhe que estou bem e que irá ficar tudo bem em breve, que – infelizmente – só me resta fugir.

Jamais esquecerei as últimas palavras da minha mãe até ficar sem comunicação: Tenho saudades tuas, filho. Amo-te muito, nunca te esqueças.

Libertei uma lágrima perante tanto amor e sinceridade sentidos.

E disse-lhe: É a Europa, mãe! A Europa está em crise!

PORAna Rbeiro
FONTEEscreViver
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