A estória de alguém

Hoje conto-vos uma estória, uma estória de vida, que é minha mas poderia ser de outro qualquer alguém.

Começa como tantas outras, eram dois pais que se amavam e que, certo dia, receberam a dádiva de ter um filho, eu.

Não vou poder relatar os primeiros anos de vida, eu gostava mas é simplesmente impossível, não tenho qualquer recordação, nada além do que me falam ou do que as poucas fotografias que tenho me contam. Devo recordar-me desde que tinha para aí uns 5 ou 6, altura da primeira ida à escola, dos primeiros amigos, da primeira oportunidade de liberdade. Lembro-me de achar nessa altura que o mundo era mágico, que me deslumbrava com tudo, que as minhas únicas preocupações eram os arranhões nos joelhos e saber que ia ter sermão quando a mãe descobrisse as calças rasgadas.

8 anos, a primeira desilusão de amor… sabia lá eu que aquela não seria a primeira nem a mais difícil. Ela era a mais bonita da escola, cabelos castanho-avelã, os olhos mais verdes que já vi. Ainda tão pequeno e o meu coração já dava pulos de cada vez que ela passava por mim no recreio. Certo dia resolvi tentar a minha sorte, era um ano mais velha mas eu, feito valente, cheguei perto dela e roubei-lhe um beijo. Levei um estalo, bem feita, ninguém me mandou ser ladrão, ainda que ladrão de beijos. Lembro-me de chorar amargamente todo o resto do dia, de levar a minha mãe a achar que estava doente, de não querer comer, de adormecer ainda a soluçar. Acordei no dia seguinte como novo, como se já não me lembrasse dela, prometendo a mim mesmo que nunca mais me deixaria ser magoado. Estaria ia eu tão enganado, pobre criança inocente.

Os anos foram passando e com eles mais umas quantas desilusões amorosas, coisas banais. Fui uma criança como tantas outras, tudo dentro dos padrões ditos normais. Na escola era um às e quanto às miúdas comecei a não lhes dar tanta importância, dava prioridade ao tempo passado com os amigos, para mim esse tempo valia ouro. Começavam a haver as primeira zaragatas, tinha eu uns quinze anos, um soco aqui e ali mas ao contrário do que acontecia com o campo amoroso, resolvíamos tudo rapidamente e ao outro dia éramos os melhores amigos outra vez.

Depressa cheguei aos vinte, mal dei pelo passar do tempo, parecia ter passado a voar. Com os vinte a chegada das responsabilidades, do primeiro emprego e, vinha a descobrir depois, do verdadeiro amor. Ao contrário da primeira, desta vez era mais nova uns três anos, sem dúvida a mulher mais linda do mundo, muito idêntica à primeira, com os seus cabelos castanhos e olhos verdes, mas vinha acompanhada de um brilho que não dava para explicar. Esta também me deu uma bofetada da primeira vez que lhe roubei uma beijo mas ao contrário da primeira vez, eu continuei a tentar. Chorei de novo por uma mulher, mas não me importei, desta vez tinha resolvido dar luta, desta vez percebi que talvez houvesse alguém pelo qual valia a pena sofrer. E estava certo, realmente valeu a pena, o sofrimento vinha a ser recompensado e hoje em dia ela é a mulher da minha vida.

Daí em diante a estória tornava a chegar ao ponto mágico do início mas com a consciência de que as preocupações iriam além dos joelho ralados ou dos rasgões na roupa.

Não sei qual será o fim da minha estória, da estória deste alguém, mas resolvi dar-lhe continuação como se de um recomeço se trata-se:

Era uma vez dois pais que se amavam e que, certo dia, receberam a dádiva de ter um filho…


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