(…) a distância daqui até onde o meu coração adormece (…)


De quantas saudades é feita a distância daqui até onde o meu coração adormece com o cheiro a casa? Não me importa saber a resposta no seu sentido literal, importa-me compreender como dizem que as chamadas, os vídeos e as cartas são um atalho para diminuir os quilómetros de fingimento em que a vida parece maravilhosa, que a conta bancária está melhor que nunca, que as festas tem sido um arraso.

Mas na verdade está uma chuva que molhou por completo os meus sapatos novos, que esta semana o atum e a massa vão continuar a ser o prato principal, que as quintas mágicas tornam as sextas trágicas. O desejo de voltar é cada vez maior mas o instinto que a meta é inalcançável insiste em fazer uma ligação de correlação direta com o sentimento que é impossível de lá chegar.

No meio desses dilemas por desvendar e destas lutas por vencer a porta do lado bate, e dou conta que existe lá alguém, afinal até é refrescante ter os pés molhados, talvez não seja tão mau comer tanta massa, sempre quis engordar uns quilos, e as quintas … podemos sempre faltar às teóricas de sexta.

Então noto, mais alguém que está longe do cheiro a frango assado de domingo e das brigas pela posse do comando. O mundo selecionado pelo ensino superior e que o gave tanto dificultou as coisas ensinou que a resistência é algo que se vai ganhando, os fracos desistem, os fortes insistem.

A saudade afinal não mata, ensina a dar valor, o dinheiro não traz assim tanta felicidade, traz responsabilidade, e a liberdade … Oh a liberdade … Sabe bem, mas sabia muito melhor quando sabíamos que se corresse algo mal íamos ter quem limpasse a sujeira que fizemos.

Os créditos das cadeiras, os resultados positivos das frequências não são apenas números, são ferramentas, e em vez de seguir o típico caminho de regresso a casa, porque não usa-las como forma de construção de uma ponte suportada pela reflexão de orgulho de quem nos ajudou a chegar até aqui?

“De quantas saudades é feita a distância daqui até onde o meu coração adormece com o cheiro a casa?” talvez a resposta até seja simples, afinal, a beleza da vida está nas coisas mais simples, inclusive nas dores prazerosas de reencontros doces e despedidas amargas que fazem que o superficial das típicas famílias politicamente corretas vejam as palavras bonitas e a ética manda-das ao ar porque apetece encher o vocabulário de palavrões e os lenços de baba porque a sua pequenota cresceu e a casa está imaculadamente limpa.