A culpa é do vento, meu amor!

Quando acordares vais ler isto: que me vou embora. Tinha mesmo que fugir, sem que sequer desconfiasses, sem que sequer duvidasses que isto ou algo parecido estivesse para acontecer. Acabaria por acontecer, mais tarde ou mais cedo, pelas nossas divergências. A culpa é do vento, meu amor. Este amor que hoje sacrifico não nos pertence mais. Não te esqueço. Estas palavras são o início do passado que seremos. Não me procures. Em ti me perdi. Sozinho me encontrarei. Faz das nossas memórias uma fogueira que te aqueça. Chama-me cobarde, mas não me chames de desonesto. Deixo-te porque os teus olhos me são iguais todos os dias. Fujo porque os nossos beijos perderam o sabor. Estas mãos que passo por ti todas as noites são ásperas, usadas em ti, de ti, e por ti. O tempo tão gasto de nós. A felicidade tão farta de nós. O nosso amor estragado, fora de validade. O mundo é tão egoísta.

Deixámos as oportunidades fugirem. E hoje, agora que dormes, esta é a minha oportunidade, este é o meu adeus. O meu corpo deixará de ser teu, E o teu corpo deixará de ser meu. Não sou mais o fardo que levas para a cama dos teus amantes. Nem tu as minhas insónias. Já não tens de me aturar nas livrarias, nem eu tenho de escolher a cor do teu verniz. Já não haverá guerra se o vinho é verde ou rosé. E acabaram-se as discussões sobre politica, ou a tua cara de amuada quando dá futebol. Sabes aquela coisa que dizias – “É só um amigo” –, já não precisas de explicar. Já podes atender o teu telemóvel descansada, sem medo.

O teu amor por mim, e o meu por ti, já não é uma obrigação. Já não temos de dar explicações, ou pedir desculpas. Eu sei que tu querias que fossemos uma história de amor – «Era uma vez…» -, mas nós fomos duas ou três.

Desculpa, meu amor, a culpa é do vento.


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