A amizade e o amor no meio…

Invadida pelo silêncio deste jardim, permaneço imóvel. As crianças surgem do nada a gritar e a saltar, o jardim ganha vida. Só que eu, ainda estou parada neste banco de jardim a evocar o passado. Onde, tu e eu não passávamos de duas crianças inocentes, com a mania de sermos adultos. E olha só, já o somos! – Tenho saudades desse tempo, sabes?

Enquanto, penso nisto, vejo um miúdo a oferecer um malmequer à sua amiguinha que está triste. Este miúdo sabe ser homem, sem ter noção disso!

Lembra- me alguém… Tu também me ofereces-te uma flor, quando eu caí no passeio da escola. Juntamente, com a flor veio um pedido para não chorar mais, e, eu fiz-te a vontade, calei-me. Gostava que, essa flor fosse eterna, mas ela acaba por ser no fundo, na minha memória. – Obrigada, por estares presente na minha vida, desde sempre. Com o passar dos anos, descobri um novo amor por ti. Ou, talvez estivesse camuflado pela minha inocência de criança. O tempo passa…

– Moça pode passar a bola? – Disse o miúdo que ofereceu a flor à sua amiguinha.

Atordoada olhei para a bola, que se encontrava nos meus pés. Os pensamentos levaram-me para longe daqui. – Claro! – Respondi ao mesmo tempo, que chutei a bola na direcção dele. Não pude deixar de sorrir. Senti a infância nos meus pés. Aquele miúdo proporcionou- me um bom momento, quis abraçá-lo por isso.

Entretanto, fito as crianças a jogar á bola, como se, aquela sensação de liberdade não fosse acabar. Ser criança é ser feliz sem pensar que, é. Simplesmente, é.

A rapariga segura na flor, como se, segurasse um tesouro precioso, (não deixa de, o ser). Na minha perspectiva de adulta, sei como ela se sente. Será que, um dia ela sentirá o mesmo que eu?

A noite caiu. As crianças já abandonaram este jardim, mas eu decidi ficar por aqui. Mesmo que, acompanhada pelo silêncio. – Por onde, andas?

O que, estarás a fazer?

São estas as perguntas, feitas pela saudade.

A brisa passa- me pelo rosto, como uma caricia. A caricia do passado. A saudade dói, dói muito mesmo.

Sinto o meu telemóvel a vibrar dentro do bolso das calças. Nem sequer, me dei ao trabalho de atender a chamada. Deve ser, um dos meus amigos preocupados, porque faltei ao encontro. – Calculei. – Depois penso numa desculpa qualquer. Eu tinha mesmo, de escapar e vir para onde fomos tão felizes sem sabermos.

Foi neste jardim que nos conhecemos. Eu tímida e tu perguntas-te se queria brincar. É tão simples ser criança, não é?

Uma pergunta e uma resposta simples «sim». Sem dúvida, sempre sim. Agora, nem eu nem tu somos crianças, mas se me perguntares, eu direi sem rodeios sim e sempre sim!

Amo-te, desde então.

Existe amor mais puro, que, no começo da vida?

Já está frio. Volto para o meu carro, olho para o retrovisor á procura de algo, mas não encontro.

No banco da frente está uma foto nossa pousada, como se, tivesse sido posta ali de prepósito. Por instantes, hesitei em pegar-lhe, parece que dói tocar num pedaço de papel. Há dois meses que, não tenho noticias tuas, mas partiste a trabalho. Não te pude exigir nada, porque sou só uma amiga. O que, dirias do meu exagero?

A minha mãe está- me sempre a dizer, para te explicar de uma vez, assim que for possível. Custa- me respirar, o coração bate furioso. Olho para o volante e ligo o carro para avançar nesta estrada deserta, mas cheia de memórias. Sinto-me a romper algo irrompível. Não interessa!

Em poucos minutos, estou em frente ao meu portão. O meu cão Óscar espera- me. Fica demasiado alterado, quando me ausento por algumas horas. É um amigo fiél, por isso que, eu o adoro tanto.

Já tem as patas da frente, em cima dos meus ombros, ao mesmo tempo lambe-me a cara.

– Olá, Óscar!

Sim eu fui, e voltei viva!

Pára com isso, já!

Lindo menino, assim gosto!

Já não está em cima de mim, mas segue- me para todo o lado, – raio do cão consegue ser pior que, um parasita. Credo!

– Toma, Óscar aí tens o teu jantar.

Estavas com fome?

O Óscar latiu-me e eu entendia um sim. Olhando de fora, as pessoas achariam que, sou louca por fazer perguntas ao meu cão e entender as respostas. Mas, tudo bem!

Os amigos não comunicam em silêncio?

Porque, raios não posso entender e falar com o meu cão?

– Lindo menino!

Come tudo.

Ele parece dizer – pára com isso, que não sou um bébé.

– Ok, Óscar não és nenhum bébé, eu sei. E não, eu não vou jantar. Não olhes assim para mim!

Não tenho fome!

Latiu-me com desagrado.

– Ok, eu como uma maçã. Satisfeito?

Sentei com o olhar dele a vigiar- me, como um controlador maníaco. – Controlador! – Pensei.

Óscar anda de um lado para o outro, a olhar para a dona, via-a abatida, por isso, decidiu deitar-se aos seus pés, com a cabeça no seu colo.

– Não achas que, estás muito grande para o meu colo?

Ok, já percebi. Deixa-te, estar!

O telefone tocou…

O cão sai imediatamente do colo da dona.

– Sim?

Não, não. Com certeza!

Claro, amanhã passo por aí.

Pousou o telefone e suspirou. – Vou dormir! Não venhas atras de mim, não vais dormir na cama comigo. Nem penses!

O cão pareceu ficar amuado e vai para o seu canto. Anabela, olha para o seu cão com dó, mas mantem a postura. Ele conseguia abusar!

Às vezes, parecia ser humano.

Deita-se na cama quase desfeita. Esquecera-se de a fazer, antes de sair. Tamanha era a urgência de escapar da solidão, que a envolvia. Dois meses neste desespero, sem saber de ti. Abraça a almofada como quem abraça a vida com desespero. És o meu melhor amigo e amo-te tanto! Por fim, conseguiu adormecer.

Os raios de sol escapam pela janela mal fechada, iluminando o rosto de Anabela. Esta, boceja e espreguiça-se. De seguida, enterra a cabeça na almofada sem vontade de enfrentar o dia. Ainda tinha de dar o pequeno- almoço ao Óscar. Daqui a pouco aparece no quarto, como sempre. Olha para o espelho, com o intuito de olhar para o nada, mas encontra o seu próprio reflexo. Ouve barulho – Já estás aí?

Já vou!

Serve o pequeno- almoço ao Óscar e trata do seu, para seguir para o trabalho.

– Até logo!

Porta-te bem!

Óscar bufou e acompanhou a dona até à porta.

– Raio, do cão anda a ficar muito rabugento!

O dia de trabalho foi muito atribulado., como sempre é. E o Óscar, o meu querido, sempre à porta pronto para me receber. Às vezes, tenho pena de ele ser somente um cão e não ter fala. Ainda assim, comunicámo-nos muito bem. Tão bem, que posso passar por louca!

O telemóvel toca. Seguro-o desnorteada, quando vejo o nome dele no ecrã. – Olá! – A minha voz não soou firme, como eu esperava. Ao invés disso, gaguejei. – Sim, claro. Onde?

Ok.

A chamada terminou e o vazio também. Não pude conter o meu sorriso idiota. Isto é, eu já sou idiota, mas não costumo ser desta maneira!

Pulei tanto de alegria, que até o Óscar ficou paralisado a olhar pra mim com o biscoito na boca. – Óscar, não olhes assim para mim!

Eu não enlouqueci!

O cão parecia censurar a minha atitude infantil. Mesmo assim, abracei o meu cão. Corri para o quarto, olho para o meu guarda-roupa e deparo- me com o drama, ou melhor a síndrome «não sei o que vou vestir». O que, se veste quando se vai encontrar com o amor?

Decido-me por umas calças e uma blusa de seda, com o cabelo apanhado num rabo de cavalo. Depois, despeço-me do meu cão.

A estrada não parece ter fim. O relógio atormenta-me. Páro o carro bruscamente numa esquina qualquer, para tentar manter-me calma.

Não ia chegar lá com este nervosismo todo. Posso parecer uma completa idiota., embora, ele esteja habituado a certos dramas meus. No entanto, esta situação é diferente, sinto-a diferente. Quero confessar- lhe tudo.

Sinto o meu sangue a ferver nas veias, enquanto seguro o volante com firmeza, quase bruta. – Calma, respira fundo, Anabela. – Repeti para mim mesma.

Retorno o caminho. A estrada é a minha aliada agora.

Jorge está sentado numa esplanada de um café, onde combinámos nos encontrar. Está lindo, como sempre. Avanço na sua direcção. Ele já me viu, levanta-se da cadeira num segundo. Os nossos olhares cruzam-se. Nasce um sorriso nos lábios dele. Em consequência disso, o meu também aparece, ainda mais radiante. Sinto- me a tremer por dentro e as minhas mãos estão a suar.

– Olá!

– Olá!

Sentaram-se em silêncio. Até que, Jorge avança – tive saudades tuas. – Eu também. – Respondi com sinceridade na voz. – Quando voltas para o estrangeiro?

– Não volto.

Vou ficar em terra.

– Então?!

– O que ganho aqui serve-me. Enquanto, estive fora pensei demasiado, no que é realmente importante para mim, a minha família, os meus amigos, tu…

– Eu?

Há, Claro, eu sou uma amiga inesquecível!

Tens imensa sorte! Não é para me gabar.

Riram às gargalhadas, ao ponto dos clientes, que se encontravam dentro do café, olharem para fora do estabelecimento.

– Estás muito engraçadinha!

Confesso que, o teu humor fez- me falta. Nem imaginas, o aborrecimento que é estar noutro país sem amigos por perto.

– Não imagino mesmo. – Reflecti.

Anabela manteve os olhos pregados na mesa, nas suas mãos pousadas sobre esta.

– A propósito, estás muito bonita.

– Obrigada. – Agradeci, embaraçada. – Bom… Como vai a tua relação com a marta?

– Não vai…

– Como assim?

– Eu terminei. Descobri que gosto de outra mulher.

– Hum.

Posso saber, quem é? – A curiosidade veio à tona. Espero ter conseguido esconder as evidências estampadas no meu rosto.

– Claro!

Sorriu-me com um sorriso quase infantil. O meu preferido.

– Antes de, te dizer quem é. Aceitas dar um passeio?

– Nem era preciso perguntares. – Sorri.

– Pois é. Tu alinhas em tudo comigo. – Parecia divertido e orgulhoso ao mesmo tempo.

– Lembro- me, agora de teres ficado de castigo por minha causa. – Tu eras terrível, mas não ias levar com as culpas sozinho. Que espécie de amiga seria eu?

– Uma boa amiga. – Sorriu.

Jorge estende-me o braço. – Permite-me?

Anabela riu – Voltas-te muito cavalheiro!

– Sempre fui. – Fez uma careta.

Retribui. Caímos os dois na gargalhada.

Seguiram de braço dado, até a um local perto dali.

– Para onde, me leva?

– Já vais ver.

Não sejas ansiosa!

É aqui. Chegámos!

– Estamos perto da minha casa.

O que viemos aqui fazer?

– Comprei um apartamento aqui mesmo. – Sorriu-me.

– O quê?!

– É isso mesmo, o que tu ouviste!

Anabela sorriu. A idéia de se cruzar com ele todos os dias agradara-lhe. – Oh pah!- Disse eu, com um entusiasmo exagerado.

Ele riu. – Ainda bem, que gostaste da idéia de sermos vizinhos.

Retribui o sorriso. Como se diz a alguém que o estamos a amar?

– Entras?

– Sim, claro. Estou ansiosa para conhecer o teu novo canto. – Disse-o com sinceridade. – Não vais convidar os teus amigos para beber uns copos?

– Não, hoje não. Não estou para convívios de gaijos. – Disse-o de um modo engraçado.

Ri-me. – Não costumas dizer isso!

– Existe uma primeira vez para tudo. Não é, verdade?

– É, parece que sim. – Respondi surpreendida. – Este comportamento não é muito normal. Tendo em conta, que os homens têm as suas preferências indiscutíveis… Algumas absurdas. Mas, quem sou eu para opinar?

– Tens assim em tão má conta os homens?

– Alguns.

Nisso a porta do apartamento abre-se. – Entra a senhora primeiro.

– Obrigada.

– É bonito o teu apartamento.

– Obrigado.

És servida com vinho?

– Sim.

– Tinto ou branco?

– Tinto.

– Senta-te aí no sofá. Já trago.

Vejo-o a ir. Estou a começar a sentir-me desconfortável aqui sozinha com ele. Não vou, nem posso transmitir-lhe o que sinto. Olho para canto desta sala. Do nada, os meus olhos puderam captar uma fotografia em cima da mesa. Aproximei-me e segurei a fotografia nas minhas mãos trémulas, éramos nós a rir despreocupados. Será que…

Isto não quer dizer nada, sua burra. Tu és amiga dele. – Rosnou a minha consciência.

Sinto uma mão na minha mão que segura a foto. Senti um calafrio, como se tivesse sido apanhada numa armadinha. Logo respirei fundo.

– Assustaste-me!

– Não era, essa a minha intenção. Desculpa!

Toma o teu copo.

– Obrigada.

– Lembras-te desse dia? – Perguntou-me, com um brilho nos olhos.

Não pude evitar sorrir. Claro que, me lembrava daquele dia. Tive a ilusão de seres meu, sem o seres.

– Sim. Foi um dia muito divertido!

– Um brinde aos bons momentos.

Ergui o meu copo ao encontro dele e brindámos. Ele olha para mim, o meu corpo reage e estremeço sem querer.

– Tens frio?

Desviei o olhar.

– Não.

Sentei-me no sofá. – Não vou beber mais. Não sou muito tolerável ao álcool.

Ele sorriu divertido. – Nunca foste.

Fiz uma careta tentando- me mostrar irritada, mas não consegui. Ele riu e eu ri também. Pousou a mão na minha, parei de rir e encarei-o. Fiquei nervosa, era melhor se não me tocasse. Ele não retirou a mão e aproximou-se ainda mais de mim. Ao mesmo tempo, parecia hesitar e perdido nos seus pensamentos. Eu também estava assim.

– Tenho de confessar algo…

Não me movi, nem saiu um som da minha boca. O meu peito parece agora muito apertado.

– A mulher que amo…

– Não precisas de dizer.

– Tenho de te dizer. – Disse-o, com o olhar ardente, tenso e um misto de medo. Mas, medo de dizer-me quem é? Porquê?

– Porquê?

– Porque… és tu.

Não me movi, a minha mão livre caiu sem força, o meu coração bateu de forma dolorosa. As lágrimas começaram a cair com vontade própria. Terei ouvido bem?

– Não chores. – Disse quase a sussurrar, ao mesmo tempo que me limpa as lágrimas com os dedos. O toque deixou-me mais nervosa. Não consegui dizer nada.

– Tu disseste…? – Perguntei quase sem voz.

– A mulher que amo és tu. E… eu compreendo que…

Eu compreendo que não sintas o mesmo. Mas, eu pensei tantas vezes, Deus queira que ela me possa amar.

Num impulso abracei-o, não consegui falar ainda. Ele respondeu-me com um abraço apertado, daqueles que me sinto segura. Depois afastei-me e vi seus olhos suplicando uma palavra minha. Sorri. – Amo-te! – Consegui dizer.

– Amo-te!

Namoras comigo?– Ouvi-o dizer com um sorriso rasgado.

– Sim. – O meu sorriso não se apagou.

Por fim, os nossos lábios selaram com um beijo, o início do nosso caminho como namorados.

(o amor pode estar à nossa frente e não o vemos)

Fim.